Contos, poemas, críticas e o que mais der na telha (ou na tela, sei lá)
   Dreamgirls: excesso de açúcar melodramático faz o sonho passar do ponto

Como já era de se esperar, é o filme pra bater pezinho da vez. Tem a melhor seqüência de abertura dos últimos tempos: só o instrumental groovy soul: baixo forte, guitarras wah-wah. Impossível ficar parado.

Aliás, Dreamgirls merece ser discutido separadamente como cinema e pelo aspecto musical. De qualquer maneira, tem altos e baixos. Como cinema, sofre por ser adaptação de um musical da Broadway. Um número coreografado até passa, agora diálogos cantados longuíssimos e derramados que surgem de forma totalmente abrupta não dá pra engolir. Faltou mão firme do diretor. A responsabilidade nem é do editor, porque o ritmo flui incrivelmente bem até o dono da gravadora começar a açucarar o som pra poder fazer sucesso nas paradas dos brancos.

É quando a música negra perde o soul – com trocadilho – e o foco da história passa da sensacional novata Jennifer Hudson (que merece todos os prêmios que anda levando: quando sua interpretação é over, a culpa é do roteiro) pra “cantriz” Beyoncé, o filme desanda de vez. A ex Destiny’s Child perde feio pra ex-American Idol tanto em termos de carisma na tela quanto de voz. De resto, o filme é um melodrama. Folhetinesco, derramado, em vários momentos brega mesmo. E bastante clichê.

Contudo, o elenco merece destaque: Eddie Murphy usa seu lado histriônico na medida pra compor seu James Early, Jamie Foxx consegue a proeza de fazer outro filme com canções passado na época da soul music sem nos fazer lembrar de sua interpretação em “Ray”. E ainda tem o medalhão Danny Glover dando uma força como coadjuvante de luxo. Mas quem rouba as cenas é a já citada Jennifer e sua Effie White, mulher de personalidade tão forte quanto a voz.

Sob o aspecto musical, Dreamgirls é uma delícia. Qualquer um com um mínimo de interesse pela música pop dos últimos 50 anos vai se divertir com as referências, desde a mais óbvia, as Supremes (em alguns takes a Beyoncé parece um clone da Diana Ross!), passando por B.B King, James Brown e até os Jackson Five. E, claro, a Sunshine Records é a Motown e o personagem de Jamie Foxx é o chefão Berry Gordy.

Contudo, há pisadas na bola como colocar o personagem de Eddie Murphy fazendo um rap no que deve ser o final dos anos 60/início dos 70, quando o estilo do canto falado só surgiu nos anos 80. E a versão dançante de “One Night Only” está mais pra house music do que pra disco music, mas tudo bem.

Apesar disso, o filme suscita uma discussão bastante pertinente nos dias de hoje, quando a música negra está pasteurizada tanto na vertente r’n’b-baba liderada pela própria Beyoncé quanto no estilo hip-hop gangsta-de-butique e suas letras sobre armas, drogas, grifes e sexo, primo rico do nosso funk proibidão.

Sintomaticamente, as melhores músicas estão na primeira parte do filme, quando reina a legítima e contagiante soul music. Fica a pergunta difícil: até onde vale mudar pra atender o mercado, com o risco de diluir a essência de um estilo musical? Lembrando que o rock só foi aceito depois de gravado por brancos como Elvis e Jerry Lee Lewis. Por sinal, a versão “branquela” de uma das músicas do filme é hilária pela verossimilhança com o estilo pop-baba dos anos 50. Berry Gordy foi um visionário e a Motown teve artistas geniais em seu cast como Marvin Gaye e as próprias Supremes. Só resta saber a que preço.


Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h55
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   Filmes

Babel – o badalado filme de Alejandro González Iñárritu com roteiro de Guillermo Arriaga definitivamente não disse a que veio. O esquema de histórias entrelaçadas nem é novidade e foi estruturado de forma muito mais interessante em Crash. Babel tem o mesmo problema do filme anterior da dupla (21 Gramas): personagens distantes, de difícil identificação, mesmo tendo vidas afetadas por tragédias de diferentes proporções. A melhor história justamente é a que soa mais deslocada. A saga da japonesa surda-muda que não sabe como lidar com a sexualidade latente e a ausência da figura materna merecia um filme só para ela. Falta coesão, as histórias são costuradas de forma frágil. Além disso, a visão do México chega a ser risível para os brasileiros e a violência e arbitrariedade policial mostradas tanto no México quanto no Oriente também não são novidade por aqui. De positivo, apenas as arrebatadoras performances dos garotos árabes (ambos não-atores) e da menina japonesa, bem como a ausência de glamour: não há personagens bonitos, nem supervalorização da beleza de pessoas ou lugares. Resumindo: não mereceu o Globo de Ouro e, caso ganhe o Oscar, vai ser mais do mesmo, porque se o objetivo era mostrar a aura de intolerância no mundo, Crash incomoda e o faz com maestria, enquanto Babel apenas dá sono.

Ah, faltou dizer uma coisa: existe pelo menos uma cena sensacional em "Babel", é a da japonesa (sempre ela!) na boate. Bem filmada, conseguiu captar a agonia e a solidão da personagem no ambiente festivo. A ausência de som em alguns momentos fez o espectador sentir o mesmo que a menina.

Casino Royale - taí um filme que cumpre o que promete: diversão e adrenalina em quase três horas. A abertura, estilosíssima, em preto-e-branco já diz a que veio. E a seqüência seguinte, meia hora de perseguição taquicárdica com as mentiradas divertidas de praxe, deixa o espectador na ponta da cadeira e tira qualquer duvida quanto ao desempenho do novo protagonista. Daniel Craig, impecável, faz um Bond dos novos tempos: menos engomadinho, mais macho, sem medo de sujar as mãos de sangue batendo impiedosamente nos adversários. Mas, ao mesmo tempo, é humano, se machuca, hesita e – pasmem – se apaixona mesmo pela Bond girl da vez, que mantém a tradição de nomes bizarros e se chama Vesper Lynd (Eva Green, de Os Sonhadores, surpreendentemente “mulherão” como o papel exige). O filme tem toques de ironia britânica que andava longe da série: a piada sobre o a preparação do Dry Martini, as tiradas sarcásticas do 007 (“essa última rodada quase me matou”) e os diálogos trocados entre ele e a Vesper mostram que a franquia ainda tem muito o que mostrar. Único porém: a duração um tanto longa faz o espectador ficar de “bunda quadrada” no cinema, provavelmente pela empolgação do diretor Martin Campbell (do ótimo A Máscara do Zorro). Ah, e reparem: este deve ser o único filme da série sem perseguição de carro. E nem precisa, porque Bond corre. E muito. E ganha a platéia com seu fôlego.

Miami Vice – roubadíssima essa adaptação do seriado trash-cult dos anos 80. Michael Mann parece ter esquecido tudo o que aprendeu em Colateral sobre como fazer um filme de ação eletrizante. Aqui, ele mantém apenas a fotografia sensacional, no estilo publicitário, que transforma Miami em uma cidade noir, da mesma forma que fez com Los Angeles no já citado filme com Tom Cruise. Aqui, o diretor/roteirista parece atirar para todos os lados, tenta agradar aos marmanjos fazendo cenas de ação e às moças apostando no romance entre o personagem de Colin Farrel e uma vilã. Mas erra a mão e a mistura desanda. O resultado é um filme longo, lento e sem sal. Com destaque negativo pro cabelo do Farrel, ressuscitando o famigerado mullet que deveria ser apenas peça de museu. Jamie Foxx está correto, mas longe de sua brilhante performance como o motorista de táxi azarado de Colateral. A única coisa digna de nota é o tiroteio final: tenso, filmado com bons ângulos e bastante realismo. Mas só isso não vale a locação e nem a pipoca.

Pra fechar: na sessão de Casino Royale passou o trailer de 300, baseado na HQ de Frank Miller 300 de Esparta, que é simplesmente sensacional! Fotografia estilizada, em tons de sépia, efeitos em CGI de cair o queixo e batalhas lindamente filmadas, que deixam Tróia no chinelo (ou seriam sandálias de guerreiro romano? :D). Além disso, desde Kill Bill não se via sangue tão esteticamente caprichado nas telas. De quebra, Rodrigo Santoro, irreconhecível como Xerxes. Em suma: quero ver esse filme *ontem*!

Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h03
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   24 Horas 6ª Temporada – A Política e a Dramaturgia

A essa altura, a Internet inteira já viu os quatro primeiros episódios do 6º ano (e o primeiro bloco do quinto) de “24 Horas”. Os críticos não param de elogiar, o hype já está criado. E vou deixar minha opinião aqui, mas para isso vou ter que dividir o tema em dois tópicos.

Ah, sim: obviamente o texto contém spoilers!

A Dramaturgia

“24 Horas” tem o mesmo plot em todas as temporadas: uma ameaça que precisa ser contida (por Jack Bauer, claro). O mérito está no uso do tempo real de forma inovadora na TV e também no fato de conseguir manter a tensão durante 24 episódios, com algumas eventuais “barrigas”. A tela dividida é utilizada com precisão e agilidade para contar as várias tramas.

Contudo... A série é previsível pacas. O espectador atento percebe os truques de roteiro e revira os olhinhos diante da suspensão de descrença cada vez maior exigida para assistir o seriado. Jack é barbaramente torturado e sai por aí de volta ao trabalho apenas depois de trocar de roupa e tomar o que deve ter sido um “banho de gato”? É ruim de engolir.

Sem contar que os principais pontos cruciais da temporada até agora eram fáceis de perceber: o problema entre Curtis e o terrorista: óbvio ululante que o agente da CTU ia tentar matar o ex-vilão que quer ser mocinho. E a questão da grande bomba: bastou perceber que Jack não estava no local com a equipe para saber que a explosão ia, sim, acontecer. Ou seja, “24” não me surpreende há muito tempo. Não estou dizendo que o final do 4º episódio não tenha sido chocante, mas faltou um pulso mais firme dos roteiristas para enganar melhor quem vê o seriado desde o início.

Pra não dizer que não falei das flores: o ponto positivo do 6º ano está na mudança da personalidade de Jack Bauer – que era o personagem mais plano da TV, unidimensional até não poder mais, verdadeiro Rambo do século XXI. Nada como dois anos sendo torturado numa prisão chinesa para mudar alguém: Jack agora hesita, chora, quer desistir. Posso estar chutando feio aqui, mas essa parece ter sido uma tática inspirada no grande sucesso dos personagens multifacetados de “Lost”. Os roteiristas/produtores de 24 (dentre eles o próprio Kiefer Sutherland) descobriram que o povo não quer ver o herói certinho e impassível. Vamos ao fato: Jack Bauer humano é muito melhor, desde a temporada passada. E Sutherland interpreta bem as nuances, embora algumas cenas tenham sido um pouco “over”.

Pra fechar, algumas observações nada sérias, que ninguém é de ferro:

1) Pára tudo: Jack Bauer foi ao banheiro! Tá, oficialmente era pra se limpar, fazer um curativo e trocar a roupa suja de sangue, mas ele foi ao banheiro!!!! Depois de 6 temporadas!

2) Jack, o Tom, um dos Outros de “Lost”, ligou e pediu pra você devolver a barba postiça dele... Citando outra personagem de seriado: seriously, aquela era a barba falsa mais bizarra da história da TV! :)

3) Conseguirá Jack Bauer sair imune da radiação nuclear? Ele estava perto demais da explosão para ficar ileso. Mas em se tratando de “24”...

4) O que são as cicatrizes no corpo do nosso herói? Tudo bem, têm lá o seu impacto à primeira vista, mas com o tempo, especialmente as da mão do Jack, parecem mesmo terem sido feitas com Super Bonder. Será que o cola-tudo virou instrumento de tortura? :D

Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h32
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   Voltando ao lado sério...

A Política

Nesse sentido, “24” continua interessantíssima, por ser a chance de ver na tela a nova paranóia americana (e mundial): o terrorismo. Jack Bauer é o herói da Era Bush (pai e filho): não se importa em matar ou torturar quem quer que seja para conseguir seus objetivos, é um cumpridor fiel de ordens (mas sabe desviar delas sempre que necessário). Corajoso, voluntarioso e leal. O soldado que todo presidente gostaria de ter.

Um dos motivos para o sucesso de “24 Horas” é justamente o de lidar com esse medo presente, fazendo os americanos terem a catarse necessária pós-11 de setembro. De quebra, trata das questões Ocidente x Oriente, liberdade x segurança, democracia x terrorismo. Vale a pena sacrificar os direitos civis em nome da propalada segurança? Deve-se considerar todo árabe um suspeito em potencial? Nesse sentido, é particularmente irônica e emblemática a cena em que um ônibus é explodido por um homem-bomba de feições asiáticas, logo depois do motorista ter se recusado a deixar um árabe subir no veículo.

Também é interessante observar a representação das intrigas palacianas, as discussões entre as alas “liberal” (mais ou menos o que chamamos de centro-esquerda) e “linha-dura” e entender um pouco sobre como a política americana funciona, ainda que pelas tintas por vezes exageradas da ficção.

De quebra, essa temporada tocou em um pavor que não aparecia no entretenimento desde, provavelmente, o filme “The Day After”: uma explosão atômica em plena Los Angeles promete muito drama e fazer o espectador pensar nas conseqüências de um ato nem tão impossível assim. O que fazer diante de uma tragédia dessa proporção? Como isso afeta a vida da superpotência mundial?

Apesar disso, “24” é um seriado conservador, provavelmente por ir ao ar na conservadora rede de TV Fox (cujo braço de notícias, a Fox News ficou infame por sua cobertura nada imparcial da última incursão americana no Iraque). Por sinal, é mais uma vez irônico ver as inserções falsas de flashes da Fox News sobre o atentado.

Embora forneça “food for thought” (alimento para o pensamento), como dizem os gringos, o seriado em geral corrobora as idéias Bushianas de que é preciso fazer tudo para garantir a segurança dos Estados Unidos. Por outro lado, quando Jack Bauer diz “Não quero morrer por nada, quero morrer por uma causa”, o que o diferencia dos terroristas suicidas?

Em suma: a sexta temporada de “24 Horas” vale a pena muito mais pelos aspectos sócio-político-culturais do que pelo viés da dramaturgia e do entretenimento. Não surpreende o espectador, mas dá uma boa aulinha de História contemporânea.

Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h24
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   Crônica de um Carnaval

Era Carnaval e ela chorava. Roupa rasgada, a meia-calça do que poderia ser uma fantasia de destaque mostrava furos de formas diversas. A sandália, plataforma, tinha um salto quebrado. Ela o carregava na mão, desolada.

Olhar perdido, andava lentamente, derrotada. Como se fosse do nada a lugar algum, como se não valesse mais a pena viver. A maquiagem, já não mais visível, manchada de lágrimas remetia a alguma máscara pagã. A vida havia perdido o sentido numa virada de tamborim.

Mulata não exatamente arquetípica. Estaria chorando por seu arlequim? Não se sabe. Perceptível, apenas a tristeza. Sólida, fria e crua como é desde sempre. Teria acreditado em um amor de carnaval?

Era Quarta-Feira de Cinzas. Pessoas voltavam para suas casas, entre cansadas e felizes, respirando folia, ouvindo ainda o ressoar da bateria. Para ela, apenas o caminhar hesitante e manco. E as lágrimas que teimavam em cair, lembrando a purpurina ou o paetê.

Ela chorava em público, mágoas à mostra. Com a coragem dos entristecidos ou a empáfia de quem simplesmente não se importa. O único brilho vigente era o das trilhas aquosas escorrendo pela face e acentuando, involuntariamente, o olhar vidrado.

Como era mesmo a música? Todo carnaval tem sem fim. O dela, não estaria nos jornais no dia seguinte, na retrospectiva do reinado do Momo, acentuando a beleza da mulher brasileira. O caminhar trôpego ostentava o orgulho dos caídos e bradava, mudo, “tire esse sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Obedientes, os transeuntes atendiam e ela andava como se emanasse doença contagiosa.

Ninguém a olhava nos olhos. Exceto alguém que se intrigou com aquele sofrimento público, sadicamente captou a cena e achou ali os sentimentos para, muito tempo depois, torná-los em texto. Eis o que escritores são: vampiros de emoções alheias.




Escrito por mim mesma, oras! :P às 04h12
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   Madrugada

A madrugada tem um ritmo diferente. Não só por haver menos pessoas na rua, mas é como se tudo respirasse mais profundamente, como acontece durante o sono. À luz da lua, as coisas se tornam soturnas, ganham um mistério antes inexistente e mesmo um ar de perigo que não ousa aparecer no sol a pino.

Tudo isso vinha à mente, não assim tão preciso, claro, mas meio embaralhado, perdido entre as lembranças do show de onde vinha e a presença incômoda do cheiro de suor e cigarro que emanava de si mesma.

Pra complicar, agora, vinda sabe-se lá de onde, a recomendação da avó martelava nos ouvidos com sua voz imaginária: “Você não devia andar sozinha tarde da noite! Isso não é hora de moça direita estar na rua!”.

Riu sozinha e o vazio da noite ecoou o riso, fazendo-a perceber-se rouca. Não devia ter se esgoelado tanto, claro, mas que graça há em ir a um show quando não se canta a música junto?

Descendo a rua, cantarolando, feliz de não saber mais o que era tristeza. Até os muros pichados com caracteres hieroglíficos ganham insuspeita beleza noturna e embalada por sua trilha sonora particular.

Os olhos foram atraídos pela porta de aço fechada. Ali, muitos comércios tentaram, nenhum sobreviveu: salão de beleza, locadora de vídeo, bar, loja de doces. Agora, só a porta, testemunha de inúmeros fracassos, transformada em cúmplice de jovens apaixonados.

Pois existiam ali várias pichações feitas com liquid-paper, giz ou caneta de escrever em CD, contendo nomes de casais, juras de amor inspiradas em letras de funk e rimas paupérrimas. O lugar lhe era familiar, assim como alguns dos nomes ali inscritos. Jorginho morreu de bala perdida. Ana, grávida, foi levada a morar com a avó. Pezão passou na prova da PM, Arlete não gostou e terminou o namoro. Marcelo, sob a alcunha de Celão, era o novo chefe da boca. Claudete, a primeira-dama, andava arrochada em calças da Gang e brilhava com os cordões de prata e ouro.

No meio das lembranças, foi um frio na boca do estômago que subiu a uma dor pontiaguda ali onde disseram ser o coração na aula de Ciências da terceira série. Tudo doía – lembrar doía, pensar doía – ao ver a frase, uma das poucas escritas em português correto: “Rogério e Paulinha: Amor Eterno”.

Tinha ouvido numa aula, não sabia se de Literatura ou de Religião, que as palavras têm poder. Era a comprovação. Que merda isso de cinco palavrinhas pichadas conseguirem fazê-la esquecer-se dos ótimos momentos passados há menos de uma hora!

O Rogério era um cara legal. Professor no pré-vestibular comunitário, meio doido, fazia faculdade de Física e dizia querer ser cientista. Ia trabalhar nos EUA, na Europa, conhecer o mundo, ganhar o tal do Prêmio Nobel. Pelo menos a cabeça sonhadora de quem inventa, ele já tinha.

Mas era ciumento, o Rogério. E não gostava dos bailes, dos shows, das festas. Implicava demais. Um dia cansou e sumiu. Dizem que foi para São Paulo, morar com uns tios. Falaram até que conseguiu bolsa na Unicamp. Não interessa. O eterno não durou muito. Aliás, existe mesmo isso de eterno? Nem o planeta vai durar para sempre, diz a professora de Geografia, como quem conta história de terror.

Ele foi, a dor ficou. O vazio, a falta de sentir falta de estar junto. Nada era igual, mas dava pra ir levando. Até ver o que não ia ser mais marcado ali naquela porta de aço. Revirou a bolsa até achar o lápis de olho, já no fim.

Quatro e meia da manhã. Não se via humanos na rua do subúrbio, só um cão ou gato sem dono. Ouvia-se menos ainda, apenas os ruídos do lápis riscando a superfície metálica com força e apagando a frase, como se fosse possível riscar a memória junto com a inscrição.

Restou o borrão preto na porta idem. E a maquiagem borrada no rosto.



Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h31
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   Vamos ver se isso aqui ainda funciona.

Hora de tirar a poeira das coisas. E não só desse blog, eu acho.



Ew, esse layout tá estranho. Vou ver se acho algo melhor...

Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h30
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   “The Prestige” – Prestidigitação Cinematográfica

O que é real? O que é ilusão? Essas são apenas algumas das perguntas que ficam na cabeça depois de assistir “The Prestige”, cujo roteiro vai muito além da premissa de uma simples disputa entre dois mágicos por fama, dinheiro e pelo “Grande Truque”.

Com fotografia e cenografia discretas e eficientes o espectador fica livre para prestar atenção ao roteiro, que a exige em boas doses. “Are you watching closely?” é o mote da trama e deve ser seguido à risca.

A história emula um truque de mágica com seus três atos: “The Pledge” (A Promessa), “The Turn” (A Virada) e “The Prestige” (O Truque) e filosofa sobre as delícias de ser enganado. A metáfora com o cinema é clara: além dos famosos três atos do roteiro aristotélico, 24 quadros por segundo fornecem tanta ilusão quanto um coelho saindo da cartola. Em ambos os casos, o público sabe estar sendo enganado e, mais do que isso, assim o deseja.

A ironia está justamente no fato de o espectador precisar mesmo se deixar iludir para apreciar “O Grande Truque”. As informações para compreender a trama cheia de reviravoltas e sacar seus mistérios estão lá e nem são difíceis de serem percebidas. Mas é fácil esquecê-las e se deixar enredar nos deliciosos plot twists. Por sinal, não se trata de um filme fácil: a narrativa não é linear e flashbacks entremeiam a história, misturando-se com o tempo presente. Mas há piscadelas cúmplices para recompensar o espectador atento.

Outro ponto capaz de afugentar algumas pessoas está nas múltiplas camadas dos protagonistas: não há um que seja unidimensional, 100% bonzinho ou malvado. Todos se mostram safados, cruéis, vis. E também carinhosos, amáveis. Ou seja, humanos. Coisa rara de se ver em um filme “cinemão”. Nesse sentido, as atuações de Hugh Jackman, Christian Bale e Scarlet Johansson, perfeitos nos respectivos papéis, só reforçam a ambigüidade.

De brinde, há ainda uma trama paralela sobre a disputa de egos no ramo da ciência. Em uma época em que feitos científicos eram apresentados como espetáculo, tudo era permitido em nome da fama: roubos, traições, mortes. E se a ciência também tem lá seus mistérios, até onde vão as semelhanças e diferenças entre cientistas e mágicos?

Como em “Amnésia” e “Batman Begins”, Christopher Nolan reforça seu gosto pelos tons de cinza, criando personagens e tramas complexas capazes de queimar neurônios das platéias. Esse talvez seja a única ressalva “The Prestige” não é um filme-pipoca e não faz concessões ao espectador. Exige apenas uma mente aberta, um tanto artística. Ou seja, se você nunca achou graça em um show de mágica, passe longe.

Um adendo aos fãs de “Lost”: a narrativa não-linear, o roteiro cheio de “pegadinhas” e um triângulo amoroso pra lá de ambíguo deixam o filme ainda mais divertido. Encontrem as analogias vocês também. :)



Escrito por mim mesma, oras! :P às 18h36
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   Sobre idiomas e indumentárias

Meu inglês anda de jeans e camiseta, largadão (e americano) mesmo. Até sai de roupa social, mas se sente um tanto desconfortável quando isso acontece. Traje de gala? Definitivamente não. No máximo um acessório mais chique aqui ou acolá.

(Putz, pensei numa boa maneira de exemplificar isso, mas seria spoiler do primeiro episódio do terceiro ano de “Lost”, então esquece)

Já meu português... Esse tem senso fashion: sabe ostentar a roupa ideal no lugar certo: casual para uso diário (embora goste muito de acessórios clássicos no cotidiano), social nos eventos formais e se mete em trajes de gala em momentos especialíssimos. Simplesmente porque pode.

***

Essa deve ter sido a metáfora mais tosca que já fiz... Mas a idéia surgiu depois de alguns posts lá no meu Live Journal, onde só escrevo no idioma de Shakeaspere (e Gaiman). Não tão bem quanto eles, óbvio. Ah, quer saber onde é? “Ask me, ask me, ask me” como diriam os Smiths...


Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h20
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   Comentários acachapados sobre "The Fountain"

Considerações pré-textuais: estas são apenas breves impressões, ainda sob o impacto do filme que acabei de ver. Certamente haverá comentários mais detalhados assim que as idéias a respeito (muitas!) se sedimentarem. Dito isso, vamos lá:

Este filme deveria vir com um aviso: deixe o seu cartesianismo e o modo de pensar ocidental do lado de fora. Esqueça noções como a de causa e efeito e, principalmente, a de tempo linear. De quebra, ponha de lado os conceitos sobre vida e morte. Pense na idéia de tempo circular e nos contrastes do yin/yang: dia/noite, branco/preto, masculino/feminino, vida/morte. Pronto, agora você estará apto a mergulhar em “The Fountain”.

Darren Aronofsky aborda de forma ambiciosa e ecumênica a jornada de um homem e uma mulher pelos mistérios da vida e da morte. Ambiciosa por não se prender a uma só interpretação e flertar com o budismo, o cristianismo, o paganismo, o espiritualismo e, por que não, com a física quântica e a ecologia. Trata também do poder das palavras, da arte como forma de transcendência e do embate entre uma mente puramente científica e outra devotada às artes. E mais não deve ser dito, sob pena de retirar o impacto dessa experiência cinematográfica.

Tecnicamente, “A Fonte da Vida” é primoroso em sua sutileza e poesia: da fotografia em tons dourados ao uso da geometria em diversos planos à escolha de cenas na montagem, passando pelo uso de close-ups que explora a beleza do casal protagonista, à brincadeira com a continuidade nos planos “invertidos” ou o truque com o som ao tirá-lo de uma cena importante. Puro domínio da arte de contar uma história em imagens gerando uma seqüência de belas cenas.

Contudo, de nada vale o visual sem um bom trabalho de atores e, nesse sentido, tanto Hugh Jackman como Rachel Weiss merecem elogios. Ele, em particular, por ser mais exigido e corresponder com uma interpretação vigorosa e entregue, sem jamais chegar ao exagero.

Trata-se de um filme-cabeça no melhor dos sentidos: para instigar a mente, fazer pensar. Particularmente corajoso por estimular uma abordagem ecumênica de um assunto que interessa a todos: viver e morrer.

Ah, sim: fãs de Neil Gaiman vão se deliciar encontrando referências (eu estava vendo a hora de aparecer uma garota gótica ali a qualquer momento :D)

Pra fechar: Por que, ó, por que cortar a sensacional cena de sexo quente na banheira idem? Dane-se a classificação indicativa! Aguardo *ansiosamente* pela versão do diretor. :D

Escrito por mim mesma, oras! :P às 23h22
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   Meninamá.com – “Quando sou boa, sou ótima. Mas quando sou má, sou muito melhor”

Impossível não lembrar da frase da Mae West depois de ver esta Chapeuzinho Vermelho from hell. Os tons de vermelho, por sinal, imperam no cenário: do óbvio casaco de capuz da menina à cor do apartamento modernoso do fotógrafo. Bela ironia, contida também no título original: segundo o IMDB, “Hard Candy” é a gíria da Internet para garotas menores de idade.

O enquadramento é tão claustrofóbico que faz pensar em um filme para TV: muitos close-ups e praticamente não há cenas externas. Quando existem, elas se tornam mais amplas exatamente por sua escassez. O uso das cores e da luz é digno dos bons filmes publicitários (o diretor, David Slade, vem dos videoclipes) e os ângulos de câmera doidões, bem como as alterações no foco e o uso da câmera tremida nas cenas de ação pagam tributo à geração MTV e também ao estilo do Darren Aronofsky (De “Pi” e “Réquiem para um Sonho”).

Outra característica técnica interessante está na quase ausência de trilha sonora. Assim, foge-se de forma inteligente do clichê da música alta para indicar suspense e/ou terror. O silêncio pode ser (e geralmente é) muito mais assustador.

Tudo isso, contudo, se mostra secundário diante da poderosa interação entre os atores, algo mais surpreendente quando se sabe que o filme foi realizado em 18 dias. O roteiro, de Brian Nelson – oriundo de seriados como “Jag” e “Lois & Clark” – ajuda, com força nos diálogos, mas é a famosa química entre Ellen Page (a Kitty Pride, de “X-Men 3”), que imprime a dose certa de crueldade ingênua à sua Hayley, e Patrick Wilson (de “O Fantasma da Ópera”) como Jake, o fotógrafo cheio de si colocado em uma situação-limite, que sustenta o filme. Ambos têm papéis difíceis e não resvalam no caricato, mantendo a tensão enquanto exibem as várias nuances dessa relação pervertida.

Todo o filme é visualmente bem pensado, até mesmo na árdua tarefa de transpor para a tela um diálogo num chat sem perder o ritmo e a consistência dramática. Nesse aspecto, o destaque vai para a seqüência de abertura, com créditos no estilo Mondrian, e para a seqüência da menina comendo uma trufa com o prazer orgástico que só um chocolate pode proporcionar. Coisa de quem se diverte filmando.

O único porém está mesmo na questão da duração: com trocadilho, é um filme que poderia muito bem ser cortado. É difícil segurar um suspense claustrofóbico por muito tempo, que o diga “Por um Fio” e seus enxutos 81 minutos contra os 103 deste aqui. Isso acaba enfraquecendo um pouco a tensão e o final “explicadinho” não colabora. Talvez depois do grande ponto crucial do roteiro, a situação perca um pouco a força.

Mas fica fácil entender o motivo do diretor ter mantido os mais de 100 minutos: certamente ficou com medo da menina. Há personagens que são folgados, espaçosos. E assustadores. Assim, “Hard Candy” ganha o espectador na construção da tensão, na inversão de papéis, e na ausência de maniqueísmos. Certas Chapeuzinhos podem ser tão cruéis quanto o Lobo Mau.

P.S: Na verdade, há outro porém: o título nacional é de lascar...

P.S 2: Pros fãs de Grey’s Anatomy, a presença da Sandra Oh é um bônus que faz pensar “O que diabos a Christina Yang está fazendo ali?” :D





Escrito por mim mesma, oras! :P às 22h27
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   "Eu pensei que o jornalismo fosse uma coisa séria..."

"Os preços da arroba do boi gordo voltaram a reagir"
(Frase de uma reportagem no Canal do Boi, visto por quem tem parabólicas)

"Mel Gibson terá que se matricular numa clínica para recuperação de alcoólatras"
(Frase de matéria no jornal O Globo de hoje)

É, Fernandinha, acho que você tem mesmo razão... :)

Escrito por mim mesma, oras! :P às 18h15
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   “Elefante” – Genial ou Picaretagem?

Aproveitei que os canais HBO estavam abertos nesse fim de semana e conferi o incensado filme do Gus Van Sant inspirado no infame massacre que também rendeu o belo “Tiros em Columbine”, do Michael Moore. No fim das contas, fiquei dividida: certos aspectos são bem interessantes. Outros, duvidosos. E há ainda os simplesmente intragáveis.

Interessante é dar forma documental a um conteúdo ficcional baseado em uma tragédia real. A câmera acompanha os personagens como se não estivesse ali e o elenco, formado basicamente por não-atores, ajuda na verossimilhança: são adolescentes de classe média baixa como os que você conhece ou já foi um dia. A narrativa, que foge da linearidade ao explorar a mesma cena por diferentes pontos de vista, também é positiva e deixa o espectador intrigado a partir do momento em que os garotos entram na escola armados pela primeira vez.

Na seara dos recursos duvidosos está o abuso dos longuíssimos planos-sequência, que deixam a película com ritmo de lesma manca. Convenhamos, na segunda caminhada de um estudante pelos corredores da escola, a gente já tinha entendido o recado: mostrar o personagem em primeiro plano com fundo desfocado reforça a individualidade e o isolamento deles (mesmo quando se trata do casal). Pra que mais?

Agora, intragável mesmo é vender imparcialidade através da câmera documental e levantar bandeiras de forma nada sutil no roteiro, culpando os pais ausentes (manjado), os videogames violentos (até parece que quem joga não sabe diferenciar ficção de realidade) e documentários nazistas (!!!), além do já clássico “bullying” pelo ato cruel. Todo o trabalho feito para mostrar os garotos como adolescentes comuns, até com interesses artísticos, representados no piano tocado por um deles, vai para o espaço diante de argumentação tão rala. Nesse sentido, pelo menos Michael Moore deixa claro desde o início que toma partido em seu documentário.

No meio termo, fica a seqüência do massacre propriamente dito. Se a crueza das imagens e a atuação blasé dos garotos têm um impacto realista impressionante, o posicionamento de câmera nos planos-seqüência aludindo aos videogames do tipo “first person shooter” novamente soa acusatório.

De quebra, Van Sant ainda faz o favor de enfurecer os militantes dos direitos homossexuais ao colocar uma cena de beijo entre os jovens assassinos. Certo, a idéia era mais mostrar os dois cedendo ao impulso adolescente de não morrer sem beijar alguém do que acusar gays de serem homicidas desequilibrados. Mas que parece apelação para causar polêmica desnecessária, parece.

E o último recurso duvidoso está no final (sim, aqui há spoilers!): quem atirou em um dos garotos? O que aconteceu com o outro? Por que este nem se abalou ao ver seu amigo ser abatido? O filme termina bruscamente, fato ainda mais estranho considerando o ritmo lento mantido o tempo inteiro. Parece que deu preguiça no diretor-roteirista.

Ou seja, apesar de lances geniais como a seqüência de abertura, a cena do céu verde-azulado tornando-se chuvoso ou o enquadramento do banheiro feminino quando as bulímicas vomitam e de pisadas na bola como o tom conservador do roteiro, “Elefante” fica no meio-termo: nem bom, nem ruim. Apenas uma experiência cinematográfica interessante.

Pra fechar, uma curiosidade: o título vem da frase do escritor Bernard MacLaverty: “Problemas são como ter um elefante na sala de estar”. Faz sentido. O filme mostra esse elefante saindo da sala e causando estragos. O problema é saber como ele foi parar lá.

Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h05
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   “Avenida Dropsie” – Mistura de linguagens numa ode à urbanidade

Embevecido. Assim fica o público ao final das quase duas horas de peça. Os aplausos de pé e assovios entusiasmados deixam claro o gosto de quero mais, as saudades imediatas e, pelo menos para esta que vos digita, a enorme vontade de ver de novo.

Porque “Avenida Dropsie” é feita de detalhes, de ações múltiplas e histórias idem. Há que se ter atenção para não perder algo importante. Impossível não se surpreender ao ver apenas oito atores para o agradecimento à platéia, pois parece haver pelo menos vinte em cena. Tudo para contar as várias histórias presentes em qualquer grande metrópole.

Este é o mérito do texto de Will Eisner adaptado e dirigido por Felipe Hirsch: mostrar um perfil mordaz e preciso da urbanidade, onde cada vida tem sua dramaticidade e rende uma boa história. Há poesia mesmo nas prosaicas brigas de vizinhos, reconciliações amorosas, despedidas ou relações familiares entre pessoas de diversas idades e nacionalidades (o trecho em que personagens trocam um “diálogo de surdos” em diversos idiomas é impagável representação da Babel contemporânea). E ninguém retrata a solidão da cidade grande como ele, com a vantagem de jamais julgar seus personagens empobrecidos pela Depressão americana.

Não posso comentar a adaptação porque não li as obras originais, mas pode-se vislumbrar a paixão do diretor/dramaturgo pelo mestre da arte seqüencial. A fidelidade chegou ao ponto de fazer chover no palco para reproduzir de forma magistral os lendários “Eisenshpritz”, a cortina de água que permeia a obra de Eisner. É espetacular ver os personagens interagindo com a chuva, que se torna um personagem à parte e adiciona força dramática às cenas.

Por sinal, a dramaturgia de “Avenida Dropsie” é impecável: do cenário retratando perfeitamente um prédio meio alquebrado à bela mistura de linguagens, na qual as projeções fornecem dinamismo e inserções dignas dos quadrinhos (como a cena dos personagens pensando no metrô) e brincam com o cinema ao dar títulos a cada pequeno ato. A narrativa de Gianfrancesco Guarnieri dando voz a Eisner alude à reflexão e ao fluxo de pensamento que só a literatura costuma fornecer. Além disso, a ação teatral múltipla me fez pensar “como eles conseguem fazer isso?”. Palmas para o diretor e para o elenco, uniformemente excepcional.

Não se pode deixar de lado a primorosa iluminação à moda noir mesmo quando mostra um dia de sol e a trilha sonora, escolhida a dedo, que vai de Ramones a música grega, passando por temas de folk bem ao gosto dos anos 30/40. E eu já mencionei a chuva, certo?

Como pequeno porém, justamente essa tentativa declarada de atualizar a peça, com um Ramones aqui, uma Britney Spears ali e um rap acolá, bem como personagens circulando com rádio-gravadores e protótipos de walkman inexistentes na época. O texto de Eisner é contemporâneo, não precisava dessas leves forçações de barra para angariar a identificação do espectador dos dias de hoje. Contudo, isso não compromete o brilho do espetáculo.

Agora entendi cada um dos elogios rasgados feitos à peça de Felipe Hirsch. Todos merecidos. Em algum lugar, Will Eisner – se não voltou como um touro numa fazenda do interior dos EUA – sorri sob uma neblina de chuva.

Escrito por mim mesma, oras! :P às 01h40
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   “O Libertino” padece com roteiro moralista

De início, o impacto causado pelo protagonista dialogando com a câmera e exibindo belo senso de humor arrogante gera um magnetismo imediato: impossível não se apaixonar por alguém que diz: “Este é meu prólogo, sem rimas ou reclamações de modéstia. Você não tinha essa expectativa, eu espero. Eu sou John Wilmot, Segundo Conde de Rochester e não quero que você goste de mim”.

Dizer que Johnny Deep é ótimo já virou clichê, embora sua atuação aqui esbarre perigosamente no limite do exagerado. Parece que os cacoetes de Jack Sparrow baixavam no moço em alguns momentos. Mas nada grave, especialmente considerando os fotogramas divididos com John Malkovitch, verdadeiras aulas de interpretação.

O roteiro vai bem ao detalhar a vida do despudorado Johnny, mostrando seus talentos artísticos e sua ironia afiada. Rebelde, inconseqüente e casado, ao voltar à sua Londres natal, encontra distração além dos bordéis e tavernas ao decidir ensinar a Elizabeth Barry, uma simplória atriz iniciante (muito bem interpretada por Samantha Morton) os segredos do palco. A moça revela-se um desafio e suscita uma inusitada paixão.

Essa relação entre os dois personagens poderia segurar o filme inteiro de tão boa, graças à química entre Depp e Morton. Seus personagens são similares: orgulhosos e nem um pouco afeitos às convenções. É interessante ver como John desperta nela o bichinho do teatro, mostrando que atuar, mais do que fingir, é sentir emoções alheias. Em contraste, o libertino não deixa Elizabeth fazer o mesmo por ele: estimular seu talento, diluído no álcool e na indisciplina.

No entanto, a linha narrativa põe tudo a perder depois da peça escrita para o embaixador francês. Como se tivesse alcançado o ápice do deboche e não tivesse mais a quem desafiar, este fato marca o início de uma inexplicável derrocada. A partir daí, o roteiro se arrasta descrevendo o ocaso físico e mental do protagonista até o inacreditável final, uma pseudo-redenção moralista de quinta categoria disfarçada de conversão espiritual.

Não faz sentido iniciar um filme colocando seu protagonista no panteão dos heróis para, no segundo ponto crucial de roteiro, jogá-lo ao rés do chão e fazê-lo padecer da carne e do espírito como mero mortal. Soa ridículo criticar as atitudes de um anti-herói auto-declarado.

Diante do roteiro desperdiçado, resta deliciar-se com a primorosa direção de arte e a fotografia caprichada: a cena da orgia no parque põe as famosas brumas londrinas na tela de forma surreal e onírica; o momento em que John está moribundo na cama parece uma pintura e há ainda o belo uso das backlights, dando uma aura aos personagens.

Méritos também do diretor Laurence Dunmore. Estreante, ele ousou brincar com as convenções e foi de câmera na mão, nervosa e semi-documental em várias cenas (no teatro e no discurso para a Câmara dos Lordes, por exemplo). Destaque também para a cena em que John, em primeiro plano, discute com a esposa, no plano de fundo e as falas são marcadas por alterações no foco em vez do manjado esquema plano/contraplano.

Ranço moralista à parte, ainda é um filme que vale a pena.


Escrito por mim mesma, oras! :P às 23h37
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