Contos, poemas, críticas e o que mais der na telha (ou na tela, sei lá)
   Você sabe que não é muito normal quando...

Sai da academia, percebe que os pingos começam a cair, mas simplesmente se recusa a abrir o guarda-chuva. E continua andando calmamente, como se fosse o dia mais bonito do mundo. Bom, pelo menos para ela era. Teve que ouvir pelo menos um “Ei, garota! Sai da chuva!” dito por uma voz masculina jovial. Quase virou para cumprimentar o sujeito com um sorriso mas estava divagando em seu próprio mundo, pensativa como sempre.

É mais do que andar na chuva. Há algo simbólico em se deixar lavar pelas águas da natureza (poluídas, ácidas, pouco importa). A sensação é um tanto libertadora. Afinal, passara pelo menos uns 20 anos receando as águas que caem do céu por lhe embaçarem as lentes dos óculos. Mas hoje não. Trata-se de outra pessoa. E não só graças às lentes de contato.

Céu nublado, bonito, prenúncio de uma tempestade. (Boa metáfora para a vida, essa - pensa). A intensidade dos pingos aumenta, corroborando a impressão. E ela anda devagar, impávida e altiva, cantando músicas sobre chuva. “Rain”, da Madonna, gruda no ouvido. Não sem antes ter pensado em “Raindrops Keep Falling on My Head”, “Crying in the Rain”, ou na favorita que há muito não ouve, “Rain Falls”. Esquece-se da mais clássica, “Singing in the Rain”. Não é fã de musicais clássicos, mesmo.

Encharca-se, feliz. Observa, divertida, os olhares intrigados das pessoas na rua em sua direção. Quer uma foto para ilustrar como as cores da rua e das plantas ficam mais vivas debaixo d’água, mas a falta de flash no palmtop impede. Chega ao prédio onde mora, ainda cantarolando. Encontra uma vizinha parada na porta esperando a filha com a chave do apartamento. Retorno brusco ao mundo real.

É, eu não sou normal (como definir tentar escrever sobre mim mesma na terceira pessoa? :D). E querem saber? Adoro isso!

Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h03
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   Minhas Leituras Recentes

Memórias Póstumas de Brás Cubas: interação com o leitor, narrativa não-linear, anti-herói como protagonista. E ironia, muita ironia. Pensou em um roteiro do Tarantino? Errou, pois estou falando do clássico de Machado de Assis, mais moderno do que muita coisa que está aí nas livrarias. Com maestria, o chamado Bruxo do Cosme Velho conta a história do “defunto autor”, cuja vida não passou de um enorme quase: quase se casou, quase foi ministro, quase foi famoso com o emplastro Brás Cubas, quase enlouqueceu como seu amigo Quincas Borba e quase teve um filho. Duas frases memoráveis: “Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa” e “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

A Metamorfose: Franz Kafka conseguiu escrever o texto mais repugnante que já li, com sua descrição detalhada (sem minúcias desnecessárias) de um sujeito que se transforma em uma imensa barata. Não apenas por isso, a narrativa é excepcional: curta e sem subtramas, fixada no psicológico do protagonista e em suas inusitadas reações, suscitando diversas interpretações. Gregório Samsa já era um inseto antes de ter se transformado fisicamente em um pelo fato de ser explorado pelo patrão e por sua bizarra família. Um perfeito “sangue-de-barata”, com todos os trocadilhos possíveis. Contudo, a impressão mais forte sobre a metamorfose é a de um parente que sustentava a casa e de súbito se vê com uma doença desfigurante e degenerativa: o afastamento do convívio, o abandono, o estresse da irmã responsável por seus cuidados. A lenta transformação de um homem em um estorvo.

No momento, leio Crime e Castigo (Dostoiévski) e me impressiona a suavidade e perícia com que ele passa do discurso indireto livre do narrador para a voz do personagem propriamente dito. Com direito a muitas divagações psicológicas. O autor russo até agora se sai muito melhor nesse quesito do que descrevendo situações. Até agora, várias subtramas, em um estilo cheio de idas-e-vindas: a narrativa não é linear, e curvilínea, uma estrada longa e sinuosa rumo a um crime e suas conseqüências. Estou gostando! :)



Escrito por mim mesma, oras! :P às 03h03
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   Verão: Estação da Indisposição

Jamais consegui entender o frenesi que toma o Rio de Janeiro nesta fatídica estação do ano. Fala-se do sol, da praia da alegria do verão. Alegria para quem, cara-bronzeada? O calor faz dormir mal, comer mal, dá uma indisposição absurda, além de tornar impossível qualquer atividade física sem um galão de água a tiracolo.

E há ainda o fato de que é preciso sair à rua no verão. A experiência de encarar um ônibus lotado em um dia calorento é um teste para qualquer aspirante a budista. Pois se um ser humano conseguir se manter zen com gente suada num coletivo abafado e com trânsito engarrafado, é candidato ideal a alcançar o nirvana.

Eu funciono de forma parecida com meu computador: sou feita para temperaturas amenas. Passou dos 30 graus, começo a funcionar lentamente até travar por completo. Sem vontade de sair de casa ou de fazer qualquer coisa em um ambiente desprovido de ventilador ou ar-condicionado. Os neurônios simplesmente não funcionam, torna-se praticamente impossível tecer um pensamento coerente. Esta crônica está sendo escrita de madrugada, diante do ventilador.

Praia? Areia, tumulto, sol e água suja? Não, obrigada. Piscina? Tumulto novamente, ficar na água onde alguém invariavelmente fez xixi? Dispenso. Além disso, não sei nadar e fica um tanto ridículo permanecer na piscininha das crianças. E eu já mencionei o sol inclemente, queimando e minando todas as forças do meu ser?

Ou seja, a probabilidade de esta que vos digita resolver tostar ao sol pra “pegar uma corzinha” é tão remota quanto a de escrever um poema sobre um vaso grego ou de ir a um show de pagode. Tenho certeza que perderia neurônios importantes se o fizesse e não conseguiria ficar nem dois minutos com sol na cabeça.

Como se não pudesse ficar pior, inventaram o horário de verão. Idéia de jerico que prolonga as horas de tortura escaldante nesse verdadeiro forno no qual se transforma todo o estado do Rio.

Outro enigma: as academias lotam nessa época do ano. Aparelhos molhados, fila para malhar, o suor escorrendo em bicas. Experimentem fazer uma aula de boxe altamente aeróbica das 17:30 às 19 h em pleno horário de verão para ver se realmente essa é a estação do “calor no coração” como diz aquela música horrenda da Marina.

Diz-se que os casos de depressão costumam aumentar no inverno. Pois eu fico mal-humorada ao calor, irritadiça mesmo. E ranzinza também. Tomar incontáveis banhos por dia ajuda a amenizar o sufoco, pois ligar o ar-condicionado pelo tempo necessário ao meu bem-estar causaria um rombo orçamentário devido ao aumento da conta de luz. Então, só me resta torcer pra o maldito verão acabar logo. Enquanto isso, shopping, cinema, lojas de departamentos, trocar o dia pela noite: vale tudo na busca por uma temperatura humanamente aceitável.

 



Escrito por mim mesma, oras! :P às 01h32
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   Ainda há salvação para a MTV

Hoje à tarde, vendo o tal MTV Lab, fiquei duplamente surpresa: primeiro por ser um horário só de clips (coisa rara na emissora, por incrível que pareça) e depois pela programação sensacional, fugindo dos sucessos de sempre e do famigerado hip-hop (que serve muito bem para música-de-academia e só):

Living Colour – The Solace of You (essa música tem o riff de guitarra tão parecido com o de “Alagados”, do Paralamas do Sucesso, que deveria dar processo por plágio)

Frente – Bizarre Love Triangle (clip jeitoso e simples: os integrantes rodopiando ao redor da vocalista e a câmera acompanhando. A música? Um cover perfeito, coisa rara de se ver)

Blur – Girls and Boys (nem dá pra acreditar que aquele moço de traços delicados é a voz do Gorillaz. E eu tenho certeza que essa música com jeito tecnopop é cover, só não sei de quem)

Front 242 – Quite Unusual (finalmente ouço uma música deles sem ser “Headhunter”!)

Prodigy – Voodoo People (não é das melhores do grupo, mas tem o clip mais surreal dos últimos tempos: um bando de gente correndo de mãos amarradas e olhos vendados)

Depeche Mode – Precious (uma das minhas favoritas do disco novo, “Playing the Angel”)

Sneaker Pimps – Spin Spin Sugar (nunca ouvi falar e não sei definir, mas gostei)

Interpol – PDA (tem pinta de DDK, meio anos 80 com uma pegada atual)

Jesus and Mary Chain – Just Like Honey (conhecia a banda só de ouvir falar e achei essa música interessante, naquele estilo tipicamente dark-dos-anos-80)

E aí eu desliguei porque não estava conseguindo me concentrar no trabalho de tradução que estou fazendo... :D

Na verdade esse post não tem muita razão de ser, além de guardar os nomes das músicas para baixar depois, hehehe!

Escrito por mim mesma, oras! :P às 17h44
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   Babaquice em Família

Eu, morrendo de sono, saindo cedo para ir ao laboratório fazer exame de sangue:
- Mãe, vou andando lá então...
E a resposta vem rápida:
- Ainda bem que você vai andando, porque voando ia ser difícil...

Viram? Minha babaquice é hereditária! :D

Escrito por mim mesma, oras! :P às 02h58
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   "Menina de Ouro" – Segundo Round

Revi “Menina de Ouro” esses dias. E ainda consegui fazer outra resenha sem spoilers! Continuo achando o filme um soco no estômago. Pude perceber as nuances do que realmente foi o melhor longa-metragem da temporada 2004/2005, não apenas pelo roteiro primoroso e surpreendente capaz de me arrancar lágrimas furtivas quando o personagem de Clint Eastwood explica a Maggie o que significa “Mo Cuishley”. Pela *segunda* vez.

A mesma segunda vez que me fez perceber a montagem enxuta: “Menina de Ouro” não tem um minuto sequer sobrando ou faltando e seu ritmo não cansa. Além disso, a fotografia é primorosa, apresentando verdadeiros quadros em forma de fotograma como a cena de Frankie rezando desesperado na igreja como antecipando pelo simples jogo de luz e sombra os próximos passos do roteiro. Reparem só como a cena se torna sombria e mesmo a música muda antes dos pontos cruciais do roteiro. Há também a questão das cores: a fotografia é toda em branco e bege. Não há azul nem nas luvas das lutadoras. Muito menos rosa. Isso dá um ar de decadência e de certa forme reflete a existência um tanto esmaecida daqueles personagens.

Também reafirmo o caráter extraordinário das atuações: Clint Eastwood, expressivo em sua inexpressividade. Quando Frankie olha Maggie no hospital o ator não move um músculo facial mas é possível cortar a tristeza com uma faca, de tão visível. Hilary Swank, sempre intensa em um trabalho de múltiplas camadas: do sotaque do interior dos EUA, da América pobre que Bush deixou para trás ao pesado trabalho físico de mostrar a evolução técnica de uma boxeadora e chegando ao ápice nas cenas do hospital, nas quais um simples olhar diz milhões de coisas. De brinde, Morgan Freeman, ostentando uma sábia serenidade em um personagem quase espartano. Trata-se de um coadjuvante de luxo e ladrão de cenas de alto nível.

A direção do Clint Eastwood dispensa comentários: nos extras se percebe a delicadeza do diretor que também atua e, por isso, consegue compreender as possibilidades do ator em relação ao texto, bem como saber a importância de um clima agradável no set de filmagens. Esqueçam a imagem brucutu de Dirty Harry, o homem é um poço de sensibilidade.

De brinde, vi duas coisas que me passaram absolutamente despercebidas da primeira vez. Uma delas, a determinação da Maggie. Sabe-se que determinação consiste em um nome bonito para cabeça-dura, e a da boxeadora pode se qualificar como sendo de titânio, e não apenas por jamais ter sido nocauteada no ringue. Antes do mau-humor de Frankie “Não-treino-garotas” Dunn, ela enfrentou a morte do pai, uma vida pobre como garçonete, a idade em tese nada apropriada para iniciar uma carreira esportiva profissional. Contra tudo isso, ela superou a si mesma. Conheceu o mundo. Ganhou fama e fortuna. E a incrível sensação de ter feito o que podia. Por essas razões tomou para si o seu destino e foi determinada mesmo na mais difícil das decisões. Gosto de personagens assim (Por que será? :D). No lugar dela, faria exatamente o mesmo.

Outro detalhe foi a cena final: a câmera mostra a lanchonete de estrada na qual Frank come uma torta de limão com Maggie, na cena onde ela declarou freqüentar o local com seu pai quando ele era vivo. No último instante do filme, enquanto Scrap narra o paradeiro de Frank, a câmera faz um zoom in e é possível ver uma cabeça grisalha, aparentemente comendo torta. Isto esclarece uma dúvida que possa passar pela cabeça dos espectadores sobre o que ele poderia ter feito consigo mesmo.

Os extras do DVD valem a pena: James Lipton, do “Inside the Actors Studio” entrevista o trio ganhador do Oscar: Clint, Hillary e Morgan com sua argúcia habitual sempre fazendo as perguntas certas. Há ainda entrevistas curtas individuais com cada um deles, ainda assim reveladoras.

Mas o meu extra favorito foi mesmo: “Born to Fight”, no qual a lutadora que interpreta a vilã do filme fala sobre o esporte e Hillary Swank relata como foi sua experiência treinando boxe. Concordei com praticamente tudo o que foi dito ali: a questão da adrenalina, da superação física, da busca por seus limites. Exceto com um comentário surreal da tal lutadora, algo como “é preciso ter sofrido muito na vida para aceitar o castigo físico de apanhar”. Nem tanto, basta ter orgulho demais pra parar e deixar a surra por isso mesmo... :) No mais, a questão da determinação aparece de novo e faz todo o sentido: nem todo mundo se dispõe a levar uma porrada no meio da cara e não desistir. Mas o melhor dessas entrevistas é ajudar a tirar a idéia do boxe como apenas um esporte violento.

Em suma? Filmaço pra ver e rever. Eu quero o DVD duplo!


Escrito por mim mesma, oras! :P às 03h20
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   "Vinícius" – Perfil de um Poeta Melancólico


Depois de tanto “hype”, resolvi conferir com as maninhas Aline, Laura, Lili e Mari (e mais a mãe da Aline) qual era a do incensado documentário, com direito a altos papos depois, regados a petiscos no Botequim Informal (o filé acebolado com queijo e aipim mereceria uma incursão na resenha gastronômica :D) e ao divino sundae de Ovomaltine do Bob’s, pérolas da chamada baixa gastronomia carioca. Babaquices também foram proferidas em profusão, mas isso fica pra outro post. Vamos, pois, à minha modesta crítica:

Tecnicamente, há sérias falhas em termos de fluência narrativa: os números musicais dos convidados em um palco semelhante a um teatro consistem em interpretações exageradamente respeitosas e/ou burocráticas (com raras exceções) quebrando o ritmo do roteiro e tornando o acompanhar da história uma verdadeira montanha-russa: quando o espectador se vê entretido com alguma anedota ou fato da vida do poeta-compositor, lá vem o palquinho para atrapalhar tudo. Ou seja, faltou esmero na montagem e um certo bom-senso à direção.

É bem verdade que seria impossível abdicar da música no filme sobre este compositor lendário da MPB. Contudo, “Vinicius” ganha mais vivacidade quando as músicas aparecem em imagens de época ou apenas dedilhadas brevemente ao violão por alguns dos entrevistados (como ocorreu com Chico, Gil, Caetano, Toquinho, Francis Hime).

Mas já que lá estão os malfadados números musicais, há que se comentá-los, lembrando ao leitor o fato de esta que vos digita apresentar ojeriza à bossa-nova. Não sei se apenas por isso, as interpretações em geral soaram lacrimosas e modorrentas. E cabe corrigir uma injustiça: uma crítica desancou a participação do Zeca Pagodinho. Verdadeiro contrasenso, pois esta foi das melhores interpretações, dando a “Pra que Chorar” um ar de pagode de mesa, alegre e descompromissado. O mesmo correu com a versão empolgada de Mart’nália para “Sei Lá, a Vida tem Sempre Razão”. Já a surpresa foi Adriana Calcanhoto, cujo estilo casou perfeitamente com a manjada “Eu sei que vou te amar”, dando-lhe um frescor há muito perdido. Ainda na seara musical, merece destaque a parte abordando a influência da música negra no trabalho de Vinícius citando os sambas-afro, vigorosos e alegres, em franca oposição à bossa-nova e seus vocais “caidinhos”. Eis um subgênero merecedor de mais estudos e destaque na história da nossa música popular.

A estrutura do documentário é interessante, por fugir ao convencional: começa e termina com uma carta-crônica de Rubem Braga despedindo-se do poeta, comentando sobre como ficou o Rio após a sua morte. Há ainda os depoimentos de praxe: amigos, parceiros de trabalho, família, personalidades do meio artístico e musical compartilhando as lembranças do chamado poetinha. Contudo, o toque inovador se dá pela presença de dois atores num palco interpretando a obra de Vinicius de maneira desigual: Ricardo Blat trabalha de forma intensa e brilhante, verdadeiramente tomado pelo furor apaixonado do autor. Já Camila Morgado deixa a desejar: falta-lhe a cancha de palco para enfrentar textos tão densos: sua interpretação anódina “assassinou” o Soneto da Fidelidade.

Nessas cenas, outro problema ficou por conta de uma desastrada intervenção de rappers em “Blues para Emmet”, visando modernizar o texto cujo mote era expressar a revolta do poeta - que se declarava “o branco mais preto do Brasil” - contra a segregação racial existente nos EUA em uma época onde o simples fato de um jovem negro ter assoviado para uma branca o levou à morte.

A despeito das falhas técnicas, emocionalmente o filme funciona - e muito! - mérito em boa parte derivado da força e qualidade da obra de Vinícius. Mesmo detestando a onipresente bossa-nova, é inegável a poética e a musicalidade de versos com os de “Tarde em Itapoã”, calcados no som das vogais. Os sonetos conseguem a rara proeza de unir a técnica à emoção, tocando sempre na alma do leitor. Em suma, a palavra se faz poderosa, digna, emocionante. Imperdoável, no entanto, é a presença de um erro de concordância capaz de doer nos ouvidos sensíveis: em uma narrativa sobre as mudanças no Rio de Janeiro dos anos 50, fala-se sobre como “a forma como as pessoas caminhava” havia mudado.

Uma das razões para sucesso de público deste documentário consiste no inegável apelo de um Rio de Janeiro idílico onde era possível abrir a casa para receber os amigos, onde a boemia fazia parte do estilo de vida carioca, sem preocupações com linhas vermelhas ou balas perdidas.

Entretanto, o aspecto marcante do filme aparece na apresentação da pessoa e da persona do Vinícius: por trás da fama de boêmio, de namorador (casou inacreditáveis nove vezes!) e da alegria desbocada presente em várias cenas, o roteiro tem o mérito de não ser apenas laudatório e mostrar a verdadeira face do protagonista: a de alguém com sérios problemas emocionais e psicológicos.

Como definir de outra forma um homem que fala o tempo todo na morte, cultiva uma mórbida alegria no sofrimento, passou a vida em busca de uma Felicidade (assim com F maiúsculo) inexistente e, por fim mas não por último, que precisava beber para estar com os amigos e se sentia mortalmente infeliz quando não estava namorando ou casado? Ora, vê-se aí um vazio e uma carência incomensuráveis.

Certamente haverá quem atribua isso ao preço de ser poeta, glamourização romântica do sofrimento. Se o artista precisa, sim, ficar recluso em seu mundinho no momento da criação, isso não necessariamente deve significar o afastamento da família, ou uma existência emocionalmente atribulada. Os depoimentos das filhas de Vinicius deixam entrever um pai amoroso mas ausente. Apaixonado, mas carente. Dependente de afeto. De certa maneira lembra o J.M. Barrie romanceado em “Em Busca da Terra do Nunca”: dramaturgo competente capaz de restaurar a fantasia na vida de uma criança, mas incapaz de ter filhos ou dar atenção à esposa.

Lá pelas tantas, confesso, irritei-me com a postura depressiva de Vinicius diante da vida, especialmente com sua total incapacidade de ser feliz sozinho. Ou melhor, de ser feliz e ponto. Não se procura a grande felicidade, mas urge sorver as felicidades cotidianas em pequenas colheradas e saboreá-las como a um sundae ou um petisco. Para alguém tão vivido na boemia e capaz de dizer que “nenhuma grande amizade nasce em uma leiteria”, espanta essa lacuna em sua percepção.

Mas digressiono. Voltando ao que interessa, três cenas merecem destaque: Tom e Vinícius completamente bêbados cantando ao violão sem perder o ritmo; a inconfidência final envolvendo uma suposta crença do poeta em reencarnação. Ambas simplesmente hilárias. E a declaração de amor à vida proferida por Ferreira Gullar, dizendo que achar que tudo é ruim pode até dar prêmio Nobel mas não é a melhor forma de se viver.

“Vinícius” renova o mofado gênero documentário e, não apenas por isso, tem mais méritos do que falhas, pelo menos para qualquer pessoa capaz de sentir-se tocada por versos. Um filme para fazer pensar sobre a vida, seja você poeta ou não.

P.S: E agora fiquei eu com o “Canto de Ossanha” na cabeça... :)

P.S 2: Sim, eu sei que andei descuidando deste blog. Pretendo não fazê-lo mais. (Ando escrevendo bonito, não? Ler Machado de Assis dá nisso! :D)


Escrito por mim mesma, oras! :P às 22h03
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