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Contos, poemas, críticas e o que mais der na telha (ou na tela, sei lá) |
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Du riechst so gut
Festa lotada. Um antigo cinema transformado em clube noturno, com pessoas vestidas de preto ao redor. Ela, contudo, ostentava um vestido longo vermelho, com saia balão. A maquiagem era marcante: pancake, delineador, sombra preta, batom vermelho. E sapatilhas. Uma bailarina gótica. O som ecoava forte e nervoso dos alto-falantes invisíveis. Baixo-bateria-guitarra e alguns teclados.
Ela dançava como se não houvesse amanhã. O universo não existia, apenas os graves batendo em seu corpo, evocando ritmos ancestrais, com as guitarras dando um toque moderno. Conhecia a música. Algo de erótico emanava daquele ritmo. Ou seria dela mesma?
Devaneava e se movia de olhos fechados até perceber alguém se aproximando. Um inconfundível corpo masculino exigia atenção, dançando por trás dela. E qual não foi sua surpresa quando ele a abraçou, virou seu pescoço para o lado com um rápido e ríspido puxão de cabelo, cheirou lentamente a região e cantou – junto com a música:
“Du riechst so gut du riechst so gut”
Sua voz era forte e urgente, puro desejo. E o efeito sobre ela foi imediato. Um arrepio percorreu seu corpo, contrastando com a alta temperatura emitida pelo mesmo invólucro biológico. Continuaram assim: ele cantando, dançando e diligentemente beijando e mordendo seu pescoço. Em plena pista de dança. Mantendo os olhos fechados, ela concentrava-se em não perder um segundo sequer de prazer. Até lembrar-se de não ter visto o rosto do rapaz. É sua vez de puxar-lhe os cabelos e trazer o rosto dele para si. Moreno, cabelos pretos espetados em um penteado quase punk. Olhos claros demarcados por delineador. Interessante. Ele trazia uma expressão intrigada, dizendo silente “por que a interrupção?”. A moça inclina o pescoço para o lado e, não sem um certo esforço (ele era mais alto), beijou-o violentamente, em movimentos bruscos como se o estivesse sorvendo. Ele correspondeu na mesma sôfrega medida.
Estava ainda imersa em deleite quando nota outra pessoa à sua frente. O rapaz moreno permaneceu se deliciando com o banquete que ela se tornava. Diante dela, o outro – branco, de cabelo preto e liso, mais alto e forte – exibe sua expressão de predador e beija-lhe avidamente os lábios. A mão dela, livre, vai direto para as nádegas dele, firmes e perfeitas. Enquanto era beijada de duas formas diferentes, a música continuava a tocar:
“ich seh dich nicht ich riech dich nur ich spüre dich ein Raubtier das vor Hunger schreit”
O homem por trás dela acariciava seu corpo, suas nádegas, sem jamais desgrudar os lábios do pescoço. Alternava as investidas em ambos os lados, ao mesmo tempo puxando o corpo dela contra o seu para que dançassem juntos. Enquanto isso, os beijos na boca com o rapaz branco incessavam. Ela retribuía com carinhos no cabelo e no pescoço dele, que somava os beijos a carícias em seus seios. Sem perder o ritmo.
Tratava-se de uma festa moderna. Mas a performance do trio já atraía atenção indesejada. Ela podia ver, de relance, olhares entre inquisidores e invejosos. E irradiava de volta um sorriso safado. Três corpos se movendo no mais antigo dos ritmos, entre beijos, lambidas e gemidos trocados de todas as formas possíveis em público. E assim poderiam permanecer por toda a eternidade. Até uma voz tirar a concentração de todos os envolvidos:
- Ei! Vocês! Arrumem um quarto, pô! Aqui, não dá pra ficar assim.
Era um segurança clichê: terno preto, porte físico “armário”. Aliás, lembrava mais um closet de milionário do que um mero guarda-roupa de classe-média. Ligeiramente constrangidos – pela interrupção, e não pelo espetáculo fornecido – os três se separaram. Antes que pudesse obter qualquer informação, os dois somem. Como se jamais tivessem existido. Ela olhou ao redor, atônita. Teria bebido demais? Mas seu corpo ainda se ressentia da exploração tátil, de ser uma marionete controlada a quatro mãos, sucumbindo ao domínio das sensações.
Deixou a festa num átimo, pois já duvidava de sua lucidez. Sentia-se estranhamente zonza e perdida, embora conhecesse bem a região. Procurou sem sucesso um táxi e terminou por embrenhar-se nas ruazinhas escuras do Centro da cidade. Ótimo cenário para um conto de Edgar Allan Poe, pensou.
Entre uma ruela e outra, descobriu-se em um beco estreito. Não se lembrava da existência desse lugar tão ermo. Sentiu um vulto nas proximidades para em seguida reconhecer o rosto familiar do moreno que lhe atacava o pescoço. Virou-se para o outro lado e encontrou o segundo rapaz. Ambos a seguravam. A corte sensual de outrora cedeu lugar a uma dança macabra. Em vez de beijos leves, mordidas pontiagudas perfuravam sua carne e seu cerne. Um, no pescoço. Outro, nos seios. Entre os ataques, havia sempre uma voz rascante e hipnótica cantando:
“Du riechst so gut du riechst so gut ich geh dir hinterher du riechst so gut ich finde dich - so gut ich steig dir nach du riechst so gut gleich hab ich dich”
Ela só podia pensar que eles a encontraram pelo cheiro. Seguiram-na pela noite com base em um olfato impossivelmente apurado. Um deles (já não podia saber qual) beijou-lhe a boca mais uma vez. Ainda pôde ouvir um “jetzt hab ich dich” sussurrado. Mas a última sensação registrada por ela foi o gosto acre de sangue. Do seu sangue.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h07
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Alguém ainda aí?
Vou tentar tirar a poeira deste blog antes que eu tenha uma crise de rinite alérgica. De resto, ando mais rocambólica do que nunca: devendo emails pra meio mundo (ainda bem que e-mail não é grana, senão estava perdida!), e testimonials no Orkut pra outra metade.
Este período está frenético e neurótico: faculdade + estágio + trabalhos de tradução = /me sem sono, sem tempo, cansaaaada pacas (tatus. Cotias, não. :D)
Mas tenho atualizado o flog, viu? Confiram em www.pixlog.net/patita
Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h03
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“Ponto Final – Match Point”: Dostoievski em uma quadra de tênis
Antes de começar, é preciso esclarecer: esta que vos digita jamais tinha assistido algo do Woody Allen antes. Isto posto, vamos lá: trata-se de um belo filme sobre Chris Wilton, um ex-tenista profissional de família pobre que acaba sucumbindo aos prazeres mundanos da upper class britânica.
Sim, é a clássica história de ascensão social que, se escrita/filmada por outro diretor, provavelmente resultaria em algo banal. Mas o incensado nova-iorquino capricha; filma Londres de forma íntima, em travellings lentos e transforma a parte luxuosa da cidade (óperas, museus, lojas de grife) em co-protagonista. Além disso, dirige com maestria os outrora insossos Jonathan Rhys Meyers e Scarlet Johansson (tá, eu não vi “Moça com Brinco de Pérola”, mas não consigo achar nada demais nela) e conta com a sorte da combustão espontânea que acontece desde o primeiro fotograma dividido por ambos. O que torna as cenas de sexo fantásticas: lúbricas na medida certa, sem jamais resvalarem no vulgar. Um momento em especial, quando Chris faz massagem em Nola, é uma verdadeira pintura.
Por sinal, Nola, a personagem de Johannson é um desafio: aparentemente poderosa e segura de si, tem seus momentos de fragilidade e instabilidade emocional surgindo aos poucos no desenrolar da história. Uma transição bem defendida pela atriz.
Como se não bastasse, há ainda as referências “midcult”: o uso da ópera na trilha sonora aumenta a aura de sofisticação e dá ao espectador a sensação de também não fazer parte daquele mundo. Aliás, a descrição da vida dos ricos ingleses beira o documental, uma espécie de National Geographic ou Discovery Channel dos abonados. E o estilo de vida britânico permeia o filme, especialmente o humor wit, as palavras atuando como dardos venenosos (thanks ao Franz Ferdinand, “Darts of Pleasure”) atingindo mortalmente os interlocutores.
O toque de genialidade, contudo, se faz presente quando o protagonista aparece lendo “Crime e Castigo”, primeiro em versão normal – e depois o resumo da obra. Sem querer entregar pontos do roteiro, pode-se dizer que em certas cenas o ex-tenista emula o perturbado Raskolnikov. Especialmente quando está atrás da porta enquanto um vizinho bate.
Como ponto negativo, o ritmo arrastado. Allen demora demais para mostrar a dinâmica do relacionamento do casal principal, algo que poderia ser resolvido na montagem. Embora, verdade seja dita, a mudança de status na relação – do estado febril da paixão inicial à rotina de obrigações e pressões posteriores – tenha sido muitíssimo bem retratada. Ponto para o roteiro.
O filme ainda possui uma “sacadinha” visual fantástica: a metáfora da bola quicando na rede e a filosofia do protagonista dizendo ser a vida uma questão de sorte. A cena se repete mais adiante, em outro contexto, causando comoção no cinema.
Merece destaque ainda o tratamento não-hollywoodiano dado às seqüências de ação (não há música subindo, personagens suando e muito menos montagem videoclíptica) e o final em aberto, dando a entender uma existência a ser corroída pela culpa.
Em suma, um belo retrato da alma humana, em todos os seus matizes. Não há preto e branco aqui, apenas tons de cinza. Ou, pensando nas quadras de Wimbledon, tons de verde. Ponto para Woody Allen. E fim de jogo.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 22h52
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De finais de novelas, análises apocalípticas e o poder da surpresa nas manifestações culturais
Ontem ouvi minha mãe resmungando por não ter gostado do final da novela "Alma Gêmea", no qual o casal protagonista morreu. Achei o fim genial justamente por ter subvertido a lógica default do gênero, embora o objetivo tivesse sido bem menos ousado: vender a idéia do final feliz acontecendo no "além", considerando a temática espírita do folhetim em questão.
Ouvindo as reclamações maternas com frases do tipo "Ah, eles sofreram a novela inteira e morrem no final? Não gostei", eu só conseguia pensar no Umberto Eco e seus avisos apocalípticos sobre o povo querer sempre "mais do mesmo" e do Adorno falando na "infantilização do leitor" (no caso, telespectador). Filosofadas frankfurtianas à parte, esta que vos digita não consegue entender como alguém não se cansa de ver sempre a mesma coisa acontecendo na dramaturgia: filmes ou livros de narrativa linear, com finais felizes, o bem vence o mal, etc. Algum dos dois autores citados falava no conforto de consumir um produto da indústria cultural sabendo de antemão o que encontrar. Eu acho é chato. Odeio previsibildiade. Quanto mais vejo filmes e leio livros, mais eu quero ser surpreendida.
Será que sou a única?
P.S.: O título desse post deve ser a coisa mais pedante que já escrevi em toda a minha existência :D
P.S. 2: Nem só de novela vive minha mãe, viu? Ela adora todos os CSIs e Lei e Ordem, vê Lost e 24 Horas comigo e amou filmes como "Kill Bill" e "Menina de Ouro"... :)
P.S. 3: Falar em "Lost"... Início de segunda temporada meio chocho, hein? Pelo menos explicaram o que tinha no maldito buraco. E no melhor estilo Chris Carter, JJ responde uma pergunta e lança 10 no ar. Vamos ver o que sai daí. Mas digo uma coisa: desde já detestei a idéia da Kate como donzela em apuros. Além disso, ela teve as falas mais estúpidas do episódio. Espero que não emburreçam a moça...
Escrito por mim mesma, oras! :P às 19h57
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“Johnny e June” – Um filme que “anda na linha”... até demais.
“Walk the line” é uma cinebiografia bastante convencional do cantor de country-rock desconhecido no Brasil Johnny Cash, o Homem de Preto. O diretor e co-roteirista James Mangold (de “Kate e Leopold” e “Garota, Interrompida”) fez tudo como manda o figurino do cinema narrativo clássico: começou na infância difícil, passou de leve pela adolescência, mostrou os perrengues para chegar ao sucesso e terminou com as inevitáveis legendas contando o fim da vida do casal country. Tudo certinho demais, talvez para contrastar com a vida desregrada do cantor.
Então, por que o filme não contagia mas também não mata o espectador de sono? Pelas performances mediúnicas de Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon e a química perfeita existente entre ambos (as cenas deles no palco são de cair o queixo). Além de a própria história do garoto do interior criado à base de gospel que se tornou a lenda da música country ser interessante por si e, de quebra, correr paralela à história do rock and roll.
Problemas? Sim, eles existem. A montagem é mão-pesada: os saltos de tempo da narrativa poderiam ter sido feitos de maneira mais sutil. Outro porém está nos canastrões escolhidos para representar os mestres do rock Jerry Lee Lewis e Elvis Presley. O caso do autor de “Great Balls of Fire” torna-se ainda mais gritante devido à existência do filme de mesmo nome, no qual Dennis Quaid dá um banho interpretando o pianista.
Contudo, a garra com que Phoenix e Whiterspoon se entregam a seus papéis (a ponto de terem se esforçado nas aulas de canto com ótimos resultados) nos faz perdoar esses deslizes e simpatizar com os personagens. Ele, o garoto com uma mancha de tristeza da alma, que jamais se recuperou da morte do irmão e da culpa impingida pelo pai cruel. Ela, a garota espevitada, divertida e arrojada a ponto de pedir um divórcio em plenos anos 50. Um relacionamento improvável, pois ambos eram casados quando se conheceram pessoalmente (embora Cash a tivesse ouvido no rádio quando ambos eram pirralhos).
E vale o aviso: não se trata exatamente uma história de amor, pois o romance fica em segundo plano em prol da ascensão-queda-redenção de Cash. Faz sentido, ele é um personagem fascinante: intenso, sofrido, foi ao fundo do poço quando abandonado. E tudo o que precisava era de alguém para lhe dar apoio. Impossível ficar indiferente à vida desse sujeito que andou na linha tênue entre a alegria e a tristeza, a sanidade e a loucura, o legal e o ilegal, sempre com muita intensidade.
Há também uns recursos visuais bobos mas funcionais: a cena de Cash olhando um garoto engraxate parece deslocada até ouvirmos uma de suas músicas no show, na qual ele transforma a labuta do menino em puro blues-rock. Ou logo no início quando o Homem de Preto olha uma serra e essa é a senha para o flashback da infância, cujo motivo só vai ficar claro bem depois. A presença do rádio ao longo da vida do protagonista também aparece de forma interessante no início, pena que se perca depois.
Mas nem só de Phoenix e Whiterspoon vive o filme. Outra interpretação digna de nota é a de Robert Patrick: gordo, com sotaque legitimamente caipira americano e modos rudes, faz um personagem odiável com perfeição. A relação entre ele e Johnny é difícil: é o pai que nunca elogia o filho e o culpa pela morte do irmão mais velho. Esse era um ponto que merecia ser mais bem explorado pelo roteiro: o confronto freudiano parecia explodir na cena do jantar de Ação de Graças, mas acaba sendo alarme falso.
Por sinal, várias pontas soltas representam um grave problema do roteiro: a cena da entrega de prêmios em que Johnny larga a esposa para falar com June fica no ar, pois não vemos a reação da coitada e nem mesmo a premiação. Outro exemplo está no misterioso interesse de Cash pela vida na prisão mesmo antes de ter visto o sol nascer quadrado. De onde ele tirava essa afinidade com quem vive à margem da sociedade? Por que diabos passaram um filme sobre uma prisão americana para soldados dos EUA servindo na Alemanha? E quem era o hippie com vozeirão que morava com ele num apartamento no tempo das vacas magras? Ficamos sem saber.
Mas o que incomoda mesmo são as semelhanças com “Ray”: a mesma narrativa linear, a mesma direção mão-pesada. Até as trajetórias do Homem de Preto e do Gênio da música negra têm pontos em comum: a infância pobre no interior, a morte de um irmão deixando marcas indeléveis, as drogas, as longas ausências causadas pelas turnês acabando com casamentos, uma amante na banda. E por aí vai. Pelo menos Johnny Cash não tinha alucinações surreais e mal filmadas...
Apesar dos pesares, vale a pena assistir “Johnny e June” por mostrar uma trajetória de vida interessante bem como o poder da música sobre as pessoas, não apenas sobre o seu autor. E a trilha sonora é fantástica, um filme pra bater o pezinho mesmo se você abomina a country music.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 23h33
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Acidente de carro atropela caubóis no Oscar
E não é que deu "Crash" como melhor filme em vez de "Brokeback Mountain"? Foi a única surpresa da noite. Sim, porque o fato de uma música chamda "As coisas são difíceis para um cafetão" levar o prêmio de melhor canção não foi surpreendente, e sim bizarro. A Academia às vezes dá uma de velhote moderninho que quer posar de garotão. Ridículo. A música de "Crash" era bem mais bonita.
Mas voltando à premiação principal, foi merecida. O filme sobre racismo é mais ousado tanto na forma quanto no conteúdo, é mesmo melhor do que a love story dos caubóis, cuja temática incômoda para alguns aparece em uma forma absolutamente convencional. Ang Lee ganhou o Oscar porque deveria ter levado por "O Tigre e o Dragão", e pronto.
Ainda assim, fiquei surpresa: pensei que a Academia votaria nos caubóis gays por ser uma polêmica "menor" diante do racismo de "Crash", da relação com os assasinos de "Capote", da paranóia americana de "Boa Noite, e Boa Sorte" e o barril de pólvora entre palestinos e judeus no Oriente Médio de "Munique". Enganei-me. Talvez faça sentido: racismo é algo notoriamente hediondo, pega bem ser contra. Ou será que pelo menos uma vez na vida a Academia resolveu premiar um filme por seu valor técnico e estético? (Embora eu ache que, nesse sentido, "Boa Noite e Boa Sorte" seja bem mais ousado e "Capote", mais impactante).
De resto, sem surpresas nas categorias de melhor ator (merecidíssimo o prêmo para o intérprete do Truman Capote) e de melhor atriz. Agora, cá pra nós: pelo que se vê no trailer, Felicity Huffman estava melhor no ainda inédito por aqui "Transamerica". Afinal, interpretar um homem em busca da mudança de sexo certamente exige mais de uma atriz do que a caipirinha espevitada de "Walk the Line", embora Reese Whiterspoon esteja ótima no papel.
Ah, e a asneira do ano foi dita pelo Rubens Ewald Filho ao dizer que o montador de "Crash", vencedor do Oscar de melhor montagem "trabalhou direitinho". Como assim? "Crash" é definitivamente um filme que ganhou sentido na moviola (se elas ainda existem :D). A montagem é fundamental nele!
O Fashion Alert pergunta: por que diabos a maioria das atrizes resolveu apostar em vestidos quase cor da pele? Como boa parte delas era branca, ficavam invariavelmente parecendo fantasmas. A Nicole Kidman então, parece que ainda está no set de "Os Outros" :D Melhores vestidos: Jessica Alba (apesar da cor), Jennifer Lopez (apesar do bronzeado artificial). Piores: Charlize Theron (com um laço que parecia uma cabeça de irmão siamês!). Entre os marmanjos, quem estava elegantíssimo era o Ludacris, assim como o charmosíssimo Eric Bana e o irretocável George Clooney.
E, por favor, mantenham o Jon Stewart como apresentador ano que vem! Piadista ferino, ótimo improvisador e com timing perfeito, não deixou a peteca cair. É o melhor apresentador de todos os tempos.
Pra fechar: o Mico do Ano foi a Jennifer Garner escorregando no vestido e quase caindo. Mas ela também leva o prêmio Presença de Espírito do Ano ao dizer "Eu faço minhas próprias cenas perigosas". Por essas e outras, sou fã da intérprete de Sydney Bristow... :) Aliás, o que foi o considerável aumento no sutiã da moça, hein? A filhota Violet não vai ter problemas de falta de leite. E o Ben Affleck, se for americano padrão obcecado por peitos, se deu bem... :D
Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h04
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É hoje! Hooray for Hollywood, it's Oscar time...
Para quem não é fã de cinema (ou para quem prefere o cinema-cabeça-indie), o Oscar não passa de uma bobajada auto-celebratória. E isso não está lá muito longe da verdade. Mas ainda assim, é impossível sucumbir à tentação de fazer apostas, especular vencedores e, claro, falar mal das roupitchas alheias. E convenhamos, americanos sabem muito bem celebrar uma de suas principais fontes de renda e influência: a indústria do entretenimento.
Semana passada esta que vos digita entrou em frenesi pré-Oscar: fui ao cinema de segunda à sexta para conferir os indicados a melhor filme ("Johnny and June", "Boa Noite e Boa Sorte", "Capote", "Munique") e também o incensado "Match Point", do Woody Allen. Ainda bem que "Crash" e "Marcas da Violência" eu já tinha visto...
Então, no clima da cerimônia, vou postando aqui ao longo da semana as críticas dos referidos filmes (a de "Crash" está alguns posts abaixo). Obviamente, as análises foram feitas sem nenhuma influência das estatuetas carecas - cuja distribuição, como bem mostrou a matéria do Globo de hoje, estão longe de serem 100% justas.
Sendo assim, vamos ver se esse Oscar vai ser mesmo tão ausente de surpresas quanto estão prometendo... :)
Escrito por mim mesma, oras! :P às 19h09
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Franz Ferdinand – “I could not have it so much better”
A frase entre aspas foi dita pelo próprio Alex Kapranos no meio do show do dia 23 de fevereiro, embevecido com a resposta da platéia. Como se fosse possível permanecer estóico diante do som energético dos escoceses! Este arquiduque não provoca guerras, mas sim festa, dança e alegria durante uma hora e meia. Rock and roll é isso!
Eles tocaram praticamente todas as músicas do primeiro álbum (Franz Ferdinand) e do segundo (You Could Have it So Much Better). E fica o aviso: o segundo disco soa *muito* melhor depois do show graças às versões mais vigorosas ao vivo. E, sim, eu sou do contra: achava o primeiro disco superior ao segundo antes do show. Depois, ambos parecem ótimos, embora o primeiro seja mais urgente e nervoso, enquanto o segundo soa um pouco mais convencional e seguro (tem até baladinhas!)
Mas voltamos ao que interessa: é interessante notar a diferença da performance de uma banda em inicio de carreira como o Franz e o megashow de um U2 da vida. Se o segundo é mais “profissional”, com seqüências bem emendadas e presepadas ensaiadas, o arquiduque ganha em espontaneidade: ainda são garotos brincando de tocar rock (embora boa parte dos integrantes já esteja na casa dos trinta), fazendo duelos de guitarras ou uma incrível performance a três na bateria sem deixar o ritmo cair. No palco existe uma alegria inerente a quem está começando nesse mundo de disco-clips-turnê e isso supera as quebras de ritmo existentes no show. Esta que vos digita sentiu falta das músicas serem “emendadas” umas nas outras, para dar um ar de baile digno do rock dançável do grupo.
Mas nada que comprometa o resultado final: a apresentação já começou fervendo com “This Boy” seguida de “Come on Home” mas a platéia esquentou mesmo em “Do you want to”, uma das mais esperadas. “I’m Your Villain” ganha força ao vivo, seguida de “Tell Her Tonight”. O outro momento levanta-platéia da noite foi “Auf Achse” (“alface”, para os íntimos), com as 2500 cabeças presentes se movendo e gritando o refrão em uníssono para uma banda estupefata.
Além da energia dos caras, que pulam, dançam e vibram, mostrando uma felicidade contagiante o tempo todo, deve-se dar o merecido destaque ao vocalista Alex Kapranos: tímido pessoalmente, no palco ele se transforma em um poço de carisma, showman dos bons, levando a platéia na mão com seus pulinhos, dancinhas no estilo Chuck Berry e a sensacional apresentação dos integrantes da banda. Quem estava lá não esquece o “Do you know his naaaaaame?”
Na verdade, a platéia já estava ganha de antemão: o público era formado por fãs, que cantaram junto “What you meant”, se esgoelaram em “Dark of the Matineé”, pularam em “The Fallen” e animaram até mesmo a calminha “Walk Away” para espanto do vocalista, declarado depois em entrevistas aos jornais. Ou mesmo durante o show na já citada frase do Alex.
Vale elogiar a estrutura do local: o Circo Voador foi uma excelente escolha para uma apresentação desse porte. Foi possível ter uma boa visão do show mesmo do alto da arquibancada, o som estava impecável e os banheiros, incrivelmente limpos.
Corta para o momento “baba”, com “Eleanor Put Your Boots On”, imitação descarada ou homenagem aos Beatles, dependendo da ranzinzice de quem ouve. Mas logo Alex anuncia: “Esta é a minha canção favorita” e é a senha para a seqüência balança-arquibancadas: “Take Me Out”, “Darts of Pleasure”, “40 Feet” e a mais esperada por esta que vos digita “Michael”, lindamente sussurrada-gemida por Kapranos.
No bis, uma surpresa, Alex entra sozinho e canta a primeira estrofe de “Jacqueline” apenas no violão. Os outros membros da banda surgem logo depois e atacam uma versão furiosa da música e a emendam com a elétrica “Evil and a Heathen”, seguida de “You Could Have it So Much Better”, “Van Tango”, “Outsiders” e o fecho literalmente incendiário com “This Fire”. Uma seqüência capaz de levantar defuntos.
Acabou? Não para os fãs persistentes que esperaram na saída do Circo Voador e ganharam um presentão: fotos, autógrafos e conversas rápidas com Alex Kapranos, um doce de pessoa, tímido até não poder mais e completamente solícito.
Se os Ferdinandos vão continuar desse jeito mesmo depois que a banda crescer só o tempo dirá. Mas uma coisa é fato: eles dominam o palco, sua música está evoluindo e fica ainda melhor ao vivo. Vida longa ao arquiduque!
Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h29
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