 |
Contos, poemas, críticas e o que mais der na telha (ou na tela, sei lá) |
 |
 |
 |
| |
"Eu pensei que o jornalismo fosse uma coisa séria..."
"Os preços da arroba do boi gordo voltaram a reagir" (Frase de uma reportagem no Canal do Boi, visto por quem tem parabólicas)
"Mel Gibson terá que se matricular numa clínica para recuperação de alcoólatras" (Frase de matéria no jornal O Globo de hoje)
É, Fernandinha, acho que você tem mesmo razão... :)
Escrito por mim mesma, oras! :P às 18h15
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
“Elefante” – Genial ou Picaretagem?
Aproveitei que os canais HBO estavam abertos nesse fim de semana e conferi o incensado filme do Gus Van Sant inspirado no infame massacre que também rendeu o belo “Tiros em Columbine”, do Michael Moore. No fim das contas, fiquei dividida: certos aspectos são bem interessantes. Outros, duvidosos. E há ainda os simplesmente intragáveis.
Interessante é dar forma documental a um conteúdo ficcional baseado em uma tragédia real. A câmera acompanha os personagens como se não estivesse ali e o elenco, formado basicamente por não-atores, ajuda na verossimilhança: são adolescentes de classe média baixa como os que você conhece ou já foi um dia. A narrativa, que foge da linearidade ao explorar a mesma cena por diferentes pontos de vista, também é positiva e deixa o espectador intrigado a partir do momento em que os garotos entram na escola armados pela primeira vez.
Na seara dos recursos duvidosos está o abuso dos longuíssimos planos-sequência, que deixam a película com ritmo de lesma manca. Convenhamos, na segunda caminhada de um estudante pelos corredores da escola, a gente já tinha entendido o recado: mostrar o personagem em primeiro plano com fundo desfocado reforça a individualidade e o isolamento deles (mesmo quando se trata do casal). Pra que mais?
Agora, intragável mesmo é vender imparcialidade através da câmera documental e levantar bandeiras de forma nada sutil no roteiro, culpando os pais ausentes (manjado), os videogames violentos (até parece que quem joga não sabe diferenciar ficção de realidade) e documentários nazistas (!!!), além do já clássico “bullying” pelo ato cruel. Todo o trabalho feito para mostrar os garotos como adolescentes comuns, até com interesses artísticos, representados no piano tocado por um deles, vai para o espaço diante de argumentação tão rala. Nesse sentido, pelo menos Michael Moore deixa claro desde o início que toma partido em seu documentário.
No meio termo, fica a seqüência do massacre propriamente dito. Se a crueza das imagens e a atuação blasé dos garotos têm um impacto realista impressionante, o posicionamento de câmera nos planos-seqüência aludindo aos videogames do tipo “first person shooter” novamente soa acusatório.
De quebra, Van Sant ainda faz o favor de enfurecer os militantes dos direitos homossexuais ao colocar uma cena de beijo entre os jovens assassinos. Certo, a idéia era mais mostrar os dois cedendo ao impulso adolescente de não morrer sem beijar alguém do que acusar gays de serem homicidas desequilibrados. Mas que parece apelação para causar polêmica desnecessária, parece.
E o último recurso duvidoso está no final (sim, aqui há spoilers!): quem atirou em um dos garotos? O que aconteceu com o outro? Por que este nem se abalou ao ver seu amigo ser abatido? O filme termina bruscamente, fato ainda mais estranho considerando o ritmo lento mantido o tempo inteiro. Parece que deu preguiça no diretor-roteirista.
Ou seja, apesar de lances geniais como a seqüência de abertura, a cena do céu verde-azulado tornando-se chuvoso ou o enquadramento do banheiro feminino quando as bulímicas vomitam e de pisadas na bola como o tom conservador do roteiro, “Elefante” fica no meio-termo: nem bom, nem ruim. Apenas uma experiência cinematográfica interessante.
Pra fechar, uma curiosidade: o título vem da frase do escritor Bernard MacLaverty: “Problemas são como ter um elefante na sala de estar”. Faz sentido. O filme mostra esse elefante saindo da sala e causando estragos. O problema é saber como ele foi parar lá.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h05
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
“Avenida Dropsie” – Mistura de linguagens numa ode à urbanidade
Embevecido. Assim fica o público ao final das quase duas horas de peça. Os aplausos de pé e assovios entusiasmados deixam claro o gosto de quero mais, as saudades imediatas e, pelo menos para esta que vos digita, a enorme vontade de ver de novo.
Porque “Avenida Dropsie” é feita de detalhes, de ações múltiplas e histórias idem. Há que se ter atenção para não perder algo importante. Impossível não se surpreender ao ver apenas oito atores para o agradecimento à platéia, pois parece haver pelo menos vinte em cena. Tudo para contar as várias histórias presentes em qualquer grande metrópole.
Este é o mérito do texto de Will Eisner adaptado e dirigido por Felipe Hirsch: mostrar um perfil mordaz e preciso da urbanidade, onde cada vida tem sua dramaticidade e rende uma boa história. Há poesia mesmo nas prosaicas brigas de vizinhos, reconciliações amorosas, despedidas ou relações familiares entre pessoas de diversas idades e nacionalidades (o trecho em que personagens trocam um “diálogo de surdos” em diversos idiomas é impagável representação da Babel contemporânea). E ninguém retrata a solidão da cidade grande como ele, com a vantagem de jamais julgar seus personagens empobrecidos pela Depressão americana.
Não posso comentar a adaptação porque não li as obras originais, mas pode-se vislumbrar a paixão do diretor/dramaturgo pelo mestre da arte seqüencial. A fidelidade chegou ao ponto de fazer chover no palco para reproduzir de forma magistral os lendários “Eisenshpritz”, a cortina de água que permeia a obra de Eisner. É espetacular ver os personagens interagindo com a chuva, que se torna um personagem à parte e adiciona força dramática às cenas.
Por sinal, a dramaturgia de “Avenida Dropsie” é impecável: do cenário retratando perfeitamente um prédio meio alquebrado à bela mistura de linguagens, na qual as projeções fornecem dinamismo e inserções dignas dos quadrinhos (como a cena dos personagens pensando no metrô) e brincam com o cinema ao dar títulos a cada pequeno ato. A narrativa de Gianfrancesco Guarnieri dando voz a Eisner alude à reflexão e ao fluxo de pensamento que só a literatura costuma fornecer. Além disso, a ação teatral múltipla me fez pensar “como eles conseguem fazer isso?”. Palmas para o diretor e para o elenco, uniformemente excepcional.
Não se pode deixar de lado a primorosa iluminação à moda noir mesmo quando mostra um dia de sol e a trilha sonora, escolhida a dedo, que vai de Ramones a música grega, passando por temas de folk bem ao gosto dos anos 30/40. E eu já mencionei a chuva, certo?
Como pequeno porém, justamente essa tentativa declarada de atualizar a peça, com um Ramones aqui, uma Britney Spears ali e um rap acolá, bem como personagens circulando com rádio-gravadores e protótipos de walkman inexistentes na época. O texto de Eisner é contemporâneo, não precisava dessas leves forçações de barra para angariar a identificação do espectador dos dias de hoje. Contudo, isso não compromete o brilho do espetáculo.
Agora entendi cada um dos elogios rasgados feitos à peça de Felipe Hirsch. Todos merecidos. Em algum lugar, Will Eisner – se não voltou como um touro numa fazenda do interior dos EUA – sorri sob uma neblina de chuva.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 01h40
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
“O Libertino” padece com roteiro moralista
De início, o impacto causado pelo protagonista dialogando com a câmera e exibindo belo senso de humor arrogante gera um magnetismo imediato: impossível não se apaixonar por alguém que diz: “Este é meu prólogo, sem rimas ou reclamações de modéstia. Você não tinha essa expectativa, eu espero. Eu sou John Wilmot, Segundo Conde de Rochester e não quero que você goste de mim”.
Dizer que Johnny Deep é ótimo já virou clichê, embora sua atuação aqui esbarre perigosamente no limite do exagerado. Parece que os cacoetes de Jack Sparrow baixavam no moço em alguns momentos. Mas nada grave, especialmente considerando os fotogramas divididos com John Malkovitch, verdadeiras aulas de interpretação.
O roteiro vai bem ao detalhar a vida do despudorado Johnny, mostrando seus talentos artísticos e sua ironia afiada. Rebelde, inconseqüente e casado, ao voltar à sua Londres natal, encontra distração além dos bordéis e tavernas ao decidir ensinar a Elizabeth Barry, uma simplória atriz iniciante (muito bem interpretada por Samantha Morton) os segredos do palco. A moça revela-se um desafio e suscita uma inusitada paixão.
Essa relação entre os dois personagens poderia segurar o filme inteiro de tão boa, graças à química entre Depp e Morton. Seus personagens são similares: orgulhosos e nem um pouco afeitos às convenções. É interessante ver como John desperta nela o bichinho do teatro, mostrando que atuar, mais do que fingir, é sentir emoções alheias. Em contraste, o libertino não deixa Elizabeth fazer o mesmo por ele: estimular seu talento, diluído no álcool e na indisciplina.
No entanto, a linha narrativa põe tudo a perder depois da peça escrita para o embaixador francês. Como se tivesse alcançado o ápice do deboche e não tivesse mais a quem desafiar, este fato marca o início de uma inexplicável derrocada. A partir daí, o roteiro se arrasta descrevendo o ocaso físico e mental do protagonista até o inacreditável final, uma pseudo-redenção moralista de quinta categoria disfarçada de conversão espiritual.
Não faz sentido iniciar um filme colocando seu protagonista no panteão dos heróis para, no segundo ponto crucial de roteiro, jogá-lo ao rés do chão e fazê-lo padecer da carne e do espírito como mero mortal. Soa ridículo criticar as atitudes de um anti-herói auto-declarado.
Diante do roteiro desperdiçado, resta deliciar-se com a primorosa direção de arte e a fotografia caprichada: a cena da orgia no parque põe as famosas brumas londrinas na tela de forma surreal e onírica; o momento em que John está moribundo na cama parece uma pintura e há ainda o belo uso das backlights, dando uma aura aos personagens.
Méritos também do diretor Laurence Dunmore. Estreante, ele ousou brincar com as convenções e foi de câmera na mão, nervosa e semi-documental em várias cenas (no teatro e no discurso para a Câmara dos Lordes, por exemplo). Destaque também para a cena em que John, em primeiro plano, discute com a esposa, no plano de fundo e as falas são marcadas por alterações no foco em vez do manjado esquema plano/contraplano.
Ranço moralista à parte, ainda é um filme que vale a pena.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 23h37
[]
[envie esta mensagem]
|
|
| |
| |
[ ver mensagens anteriores ] |
|
|
|
|