Contos, poemas, críticas e o que mais der na telha (ou na tela, sei lá)
   Filmes

Babel – o badalado filme de Alejandro González Iñárritu com roteiro de Guillermo Arriaga definitivamente não disse a que veio. O esquema de histórias entrelaçadas nem é novidade e foi estruturado de forma muito mais interessante em Crash. Babel tem o mesmo problema do filme anterior da dupla (21 Gramas): personagens distantes, de difícil identificação, mesmo tendo vidas afetadas por tragédias de diferentes proporções. A melhor história justamente é a que soa mais deslocada. A saga da japonesa surda-muda que não sabe como lidar com a sexualidade latente e a ausência da figura materna merecia um filme só para ela. Falta coesão, as histórias são costuradas de forma frágil. Além disso, a visão do México chega a ser risível para os brasileiros e a violência e arbitrariedade policial mostradas tanto no México quanto no Oriente também não são novidade por aqui. De positivo, apenas as arrebatadoras performances dos garotos árabes (ambos não-atores) e da menina japonesa, bem como a ausência de glamour: não há personagens bonitos, nem supervalorização da beleza de pessoas ou lugares. Resumindo: não mereceu o Globo de Ouro e, caso ganhe o Oscar, vai ser mais do mesmo, porque se o objetivo era mostrar a aura de intolerância no mundo, Crash incomoda e o faz com maestria, enquanto Babel apenas dá sono.

Ah, faltou dizer uma coisa: existe pelo menos uma cena sensacional em "Babel", é a da japonesa (sempre ela!) na boate. Bem filmada, conseguiu captar a agonia e a solidão da personagem no ambiente festivo. A ausência de som em alguns momentos fez o espectador sentir o mesmo que a menina.

Casino Royale - taí um filme que cumpre o que promete: diversão e adrenalina em quase três horas. A abertura, estilosíssima, em preto-e-branco já diz a que veio. E a seqüência seguinte, meia hora de perseguição taquicárdica com as mentiradas divertidas de praxe, deixa o espectador na ponta da cadeira e tira qualquer duvida quanto ao desempenho do novo protagonista. Daniel Craig, impecável, faz um Bond dos novos tempos: menos engomadinho, mais macho, sem medo de sujar as mãos de sangue batendo impiedosamente nos adversários. Mas, ao mesmo tempo, é humano, se machuca, hesita e – pasmem – se apaixona mesmo pela Bond girl da vez, que mantém a tradição de nomes bizarros e se chama Vesper Lynd (Eva Green, de Os Sonhadores, surpreendentemente “mulherão” como o papel exige). O filme tem toques de ironia britânica que andava longe da série: a piada sobre o a preparação do Dry Martini, as tiradas sarcásticas do 007 (“essa última rodada quase me matou”) e os diálogos trocados entre ele e a Vesper mostram que a franquia ainda tem muito o que mostrar. Único porém: a duração um tanto longa faz o espectador ficar de “bunda quadrada” no cinema, provavelmente pela empolgação do diretor Martin Campbell (do ótimo A Máscara do Zorro). Ah, e reparem: este deve ser o único filme da série sem perseguição de carro. E nem precisa, porque Bond corre. E muito. E ganha a platéia com seu fôlego.

Miami Vice – roubadíssima essa adaptação do seriado trash-cult dos anos 80. Michael Mann parece ter esquecido tudo o que aprendeu em Colateral sobre como fazer um filme de ação eletrizante. Aqui, ele mantém apenas a fotografia sensacional, no estilo publicitário, que transforma Miami em uma cidade noir, da mesma forma que fez com Los Angeles no já citado filme com Tom Cruise. Aqui, o diretor/roteirista parece atirar para todos os lados, tenta agradar aos marmanjos fazendo cenas de ação e às moças apostando no romance entre o personagem de Colin Farrel e uma vilã. Mas erra a mão e a mistura desanda. O resultado é um filme longo, lento e sem sal. Com destaque negativo pro cabelo do Farrel, ressuscitando o famigerado mullet que deveria ser apenas peça de museu. Jamie Foxx está correto, mas longe de sua brilhante performance como o motorista de táxi azarado de Colateral. A única coisa digna de nota é o tiroteio final: tenso, filmado com bons ângulos e bastante realismo. Mas só isso não vale a locação e nem a pipoca.

Pra fechar: na sessão de Casino Royale passou o trailer de 300, baseado na HQ de Frank Miller 300 de Esparta, que é simplesmente sensacional! Fotografia estilizada, em tons de sépia, efeitos em CGI de cair o queixo e batalhas lindamente filmadas, que deixam Tróia no chinelo (ou seriam sandálias de guerreiro romano? :D). Além disso, desde Kill Bill não se via sangue tão esteticamente caprichado nas telas. De quebra, Rodrigo Santoro, irreconhecível como Xerxes. Em suma: quero ver esse filme *ontem*!

Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h03
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   24 Horas 6ª Temporada – A Política e a Dramaturgia

A essa altura, a Internet inteira já viu os quatro primeiros episódios do 6º ano (e o primeiro bloco do quinto) de “24 Horas”. Os críticos não param de elogiar, o hype já está criado. E vou deixar minha opinião aqui, mas para isso vou ter que dividir o tema em dois tópicos.

Ah, sim: obviamente o texto contém spoilers!

A Dramaturgia

“24 Horas” tem o mesmo plot em todas as temporadas: uma ameaça que precisa ser contida (por Jack Bauer, claro). O mérito está no uso do tempo real de forma inovadora na TV e também no fato de conseguir manter a tensão durante 24 episódios, com algumas eventuais “barrigas”. A tela dividida é utilizada com precisão e agilidade para contar as várias tramas.

Contudo... A série é previsível pacas. O espectador atento percebe os truques de roteiro e revira os olhinhos diante da suspensão de descrença cada vez maior exigida para assistir o seriado. Jack é barbaramente torturado e sai por aí de volta ao trabalho apenas depois de trocar de roupa e tomar o que deve ter sido um “banho de gato”? É ruim de engolir.

Sem contar que os principais pontos cruciais da temporada até agora eram fáceis de perceber: o problema entre Curtis e o terrorista: óbvio ululante que o agente da CTU ia tentar matar o ex-vilão que quer ser mocinho. E a questão da grande bomba: bastou perceber que Jack não estava no local com a equipe para saber que a explosão ia, sim, acontecer. Ou seja, “24” não me surpreende há muito tempo. Não estou dizendo que o final do 4º episódio não tenha sido chocante, mas faltou um pulso mais firme dos roteiristas para enganar melhor quem vê o seriado desde o início.

Pra não dizer que não falei das flores: o ponto positivo do 6º ano está na mudança da personalidade de Jack Bauer – que era o personagem mais plano da TV, unidimensional até não poder mais, verdadeiro Rambo do século XXI. Nada como dois anos sendo torturado numa prisão chinesa para mudar alguém: Jack agora hesita, chora, quer desistir. Posso estar chutando feio aqui, mas essa parece ter sido uma tática inspirada no grande sucesso dos personagens multifacetados de “Lost”. Os roteiristas/produtores de 24 (dentre eles o próprio Kiefer Sutherland) descobriram que o povo não quer ver o herói certinho e impassível. Vamos ao fato: Jack Bauer humano é muito melhor, desde a temporada passada. E Sutherland interpreta bem as nuances, embora algumas cenas tenham sido um pouco “over”.

Pra fechar, algumas observações nada sérias, que ninguém é de ferro:

1) Pára tudo: Jack Bauer foi ao banheiro! Tá, oficialmente era pra se limpar, fazer um curativo e trocar a roupa suja de sangue, mas ele foi ao banheiro!!!! Depois de 6 temporadas!

2) Jack, o Tom, um dos Outros de “Lost”, ligou e pediu pra você devolver a barba postiça dele... Citando outra personagem de seriado: seriously, aquela era a barba falsa mais bizarra da história da TV! :)

3) Conseguirá Jack Bauer sair imune da radiação nuclear? Ele estava perto demais da explosão para ficar ileso. Mas em se tratando de “24”...

4) O que são as cicatrizes no corpo do nosso herói? Tudo bem, têm lá o seu impacto à primeira vista, mas com o tempo, especialmente as da mão do Jack, parecem mesmo terem sido feitas com Super Bonder. Será que o cola-tudo virou instrumento de tortura? :D

Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h32
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   Voltando ao lado sério...

A Política

Nesse sentido, “24” continua interessantíssima, por ser a chance de ver na tela a nova paranóia americana (e mundial): o terrorismo. Jack Bauer é o herói da Era Bush (pai e filho): não se importa em matar ou torturar quem quer que seja para conseguir seus objetivos, é um cumpridor fiel de ordens (mas sabe desviar delas sempre que necessário). Corajoso, voluntarioso e leal. O soldado que todo presidente gostaria de ter.

Um dos motivos para o sucesso de “24 Horas” é justamente o de lidar com esse medo presente, fazendo os americanos terem a catarse necessária pós-11 de setembro. De quebra, trata das questões Ocidente x Oriente, liberdade x segurança, democracia x terrorismo. Vale a pena sacrificar os direitos civis em nome da propalada segurança? Deve-se considerar todo árabe um suspeito em potencial? Nesse sentido, é particularmente irônica e emblemática a cena em que um ônibus é explodido por um homem-bomba de feições asiáticas, logo depois do motorista ter se recusado a deixar um árabe subir no veículo.

Também é interessante observar a representação das intrigas palacianas, as discussões entre as alas “liberal” (mais ou menos o que chamamos de centro-esquerda) e “linha-dura” e entender um pouco sobre como a política americana funciona, ainda que pelas tintas por vezes exageradas da ficção.

De quebra, essa temporada tocou em um pavor que não aparecia no entretenimento desde, provavelmente, o filme “The Day After”: uma explosão atômica em plena Los Angeles promete muito drama e fazer o espectador pensar nas conseqüências de um ato nem tão impossível assim. O que fazer diante de uma tragédia dessa proporção? Como isso afeta a vida da superpotência mundial?

Apesar disso, “24” é um seriado conservador, provavelmente por ir ao ar na conservadora rede de TV Fox (cujo braço de notícias, a Fox News ficou infame por sua cobertura nada imparcial da última incursão americana no Iraque). Por sinal, é mais uma vez irônico ver as inserções falsas de flashes da Fox News sobre o atentado.

Embora forneça “food for thought” (alimento para o pensamento), como dizem os gringos, o seriado em geral corrobora as idéias Bushianas de que é preciso fazer tudo para garantir a segurança dos Estados Unidos. Por outro lado, quando Jack Bauer diz “Não quero morrer por nada, quero morrer por uma causa”, o que o diferencia dos terroristas suicidas?

Em suma: a sexta temporada de “24 Horas” vale a pena muito mais pelos aspectos sócio-político-culturais do que pelo viés da dramaturgia e do entretenimento. Não surpreende o espectador, mas dá uma boa aulinha de História contemporânea.

Escrito por mim mesma, oras! :P às 20h24
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   Crônica de um Carnaval

Era Carnaval e ela chorava. Roupa rasgada, a meia-calça do que poderia ser uma fantasia de destaque mostrava furos de formas diversas. A sandália, plataforma, tinha um salto quebrado. Ela o carregava na mão, desolada.

Olhar perdido, andava lentamente, derrotada. Como se fosse do nada a lugar algum, como se não valesse mais a pena viver. A maquiagem, já não mais visível, manchada de lágrimas remetia a alguma máscara pagã. A vida havia perdido o sentido numa virada de tamborim.

Mulata não exatamente arquetípica. Estaria chorando por seu arlequim? Não se sabe. Perceptível, apenas a tristeza. Sólida, fria e crua como é desde sempre. Teria acreditado em um amor de carnaval?

Era Quarta-Feira de Cinzas. Pessoas voltavam para suas casas, entre cansadas e felizes, respirando folia, ouvindo ainda o ressoar da bateria. Para ela, apenas o caminhar hesitante e manco. E as lágrimas que teimavam em cair, lembrando a purpurina ou o paetê.

Ela chorava em público, mágoas à mostra. Com a coragem dos entristecidos ou a empáfia de quem simplesmente não se importa. O único brilho vigente era o das trilhas aquosas escorrendo pela face e acentuando, involuntariamente, o olhar vidrado.

Como era mesmo a música? Todo carnaval tem sem fim. O dela, não estaria nos jornais no dia seguinte, na retrospectiva do reinado do Momo, acentuando a beleza da mulher brasileira. O caminhar trôpego ostentava o orgulho dos caídos e bradava, mudo, “tire esse sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Obedientes, os transeuntes atendiam e ela andava como se emanasse doença contagiosa.

Ninguém a olhava nos olhos. Exceto alguém que se intrigou com aquele sofrimento público, sadicamente captou a cena e achou ali os sentimentos para, muito tempo depois, torná-los em texto. Eis o que escritores são: vampiros de emoções alheias.




Escrito por mim mesma, oras! :P às 04h12
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   Madrugada

A madrugada tem um ritmo diferente. Não só por haver menos pessoas na rua, mas é como se tudo respirasse mais profundamente, como acontece durante o sono. À luz da lua, as coisas se tornam soturnas, ganham um mistério antes inexistente e mesmo um ar de perigo que não ousa aparecer no sol a pino.

Tudo isso vinha à mente, não assim tão preciso, claro, mas meio embaralhado, perdido entre as lembranças do show de onde vinha e a presença incômoda do cheiro de suor e cigarro que emanava de si mesma.

Pra complicar, agora, vinda sabe-se lá de onde, a recomendação da avó martelava nos ouvidos com sua voz imaginária: “Você não devia andar sozinha tarde da noite! Isso não é hora de moça direita estar na rua!”.

Riu sozinha e o vazio da noite ecoou o riso, fazendo-a perceber-se rouca. Não devia ter se esgoelado tanto, claro, mas que graça há em ir a um show quando não se canta a música junto?

Descendo a rua, cantarolando, feliz de não saber mais o que era tristeza. Até os muros pichados com caracteres hieroglíficos ganham insuspeita beleza noturna e embalada por sua trilha sonora particular.

Os olhos foram atraídos pela porta de aço fechada. Ali, muitos comércios tentaram, nenhum sobreviveu: salão de beleza, locadora de vídeo, bar, loja de doces. Agora, só a porta, testemunha de inúmeros fracassos, transformada em cúmplice de jovens apaixonados.

Pois existiam ali várias pichações feitas com liquid-paper, giz ou caneta de escrever em CD, contendo nomes de casais, juras de amor inspiradas em letras de funk e rimas paupérrimas. O lugar lhe era familiar, assim como alguns dos nomes ali inscritos. Jorginho morreu de bala perdida. Ana, grávida, foi levada a morar com a avó. Pezão passou na prova da PM, Arlete não gostou e terminou o namoro. Marcelo, sob a alcunha de Celão, era o novo chefe da boca. Claudete, a primeira-dama, andava arrochada em calças da Gang e brilhava com os cordões de prata e ouro.

No meio das lembranças, foi um frio na boca do estômago que subiu a uma dor pontiaguda ali onde disseram ser o coração na aula de Ciências da terceira série. Tudo doía – lembrar doía, pensar doía – ao ver a frase, uma das poucas escritas em português correto: “Rogério e Paulinha: Amor Eterno”.

Tinha ouvido numa aula, não sabia se de Literatura ou de Religião, que as palavras têm poder. Era a comprovação. Que merda isso de cinco palavrinhas pichadas conseguirem fazê-la esquecer-se dos ótimos momentos passados há menos de uma hora!

O Rogério era um cara legal. Professor no pré-vestibular comunitário, meio doido, fazia faculdade de Física e dizia querer ser cientista. Ia trabalhar nos EUA, na Europa, conhecer o mundo, ganhar o tal do Prêmio Nobel. Pelo menos a cabeça sonhadora de quem inventa, ele já tinha.

Mas era ciumento, o Rogério. E não gostava dos bailes, dos shows, das festas. Implicava demais. Um dia cansou e sumiu. Dizem que foi para São Paulo, morar com uns tios. Falaram até que conseguiu bolsa na Unicamp. Não interessa. O eterno não durou muito. Aliás, existe mesmo isso de eterno? Nem o planeta vai durar para sempre, diz a professora de Geografia, como quem conta história de terror.

Ele foi, a dor ficou. O vazio, a falta de sentir falta de estar junto. Nada era igual, mas dava pra ir levando. Até ver o que não ia ser mais marcado ali naquela porta de aço. Revirou a bolsa até achar o lápis de olho, já no fim.

Quatro e meia da manhã. Não se via humanos na rua do subúrbio, só um cão ou gato sem dono. Ouvia-se menos ainda, apenas os ruídos do lápis riscando a superfície metálica com força e apagando a frase, como se fosse possível riscar a memória junto com a inscrição.

Restou o borrão preto na porta idem. E a maquiagem borrada no rosto.



Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h31
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   Vamos ver se isso aqui ainda funciona.

Hora de tirar a poeira das coisas. E não só desse blog, eu acho.



Ew, esse layout tá estranho. Vou ver se acho algo melhor...

Escrito por mim mesma, oras! :P às 00h30
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