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Dreamgirls: excesso de açúcar melodramático faz o sonho passar do ponto
Como já era de se esperar, é o filme pra bater pezinho da vez. Tem a melhor seqüência de abertura dos últimos tempos: só o instrumental groovy soul: baixo forte, guitarras wah-wah. Impossível ficar parado.
Aliás, Dreamgirls merece ser discutido separadamente como cinema e pelo aspecto musical. De qualquer maneira, tem altos e baixos. Como cinema, sofre por ser adaptação de um musical da Broadway. Um número coreografado até passa, agora diálogos cantados longuíssimos e derramados que surgem de forma totalmente abrupta não dá pra engolir. Faltou mão firme do diretor. A responsabilidade nem é do editor, porque o ritmo flui incrivelmente bem até o dono da gravadora começar a açucarar o som pra poder fazer sucesso nas paradas dos brancos.
É quando a música negra perde o soul – com trocadilho – e o foco da história passa da sensacional novata Jennifer Hudson (que merece todos os prêmios que anda levando: quando sua interpretação é over, a culpa é do roteiro) pra “cantriz” Beyoncé, o filme desanda de vez. A ex Destiny’s Child perde feio pra ex-American Idol tanto em termos de carisma na tela quanto de voz. De resto, o filme é um melodrama. Folhetinesco, derramado, em vários momentos brega mesmo. E bastante clichê.
Contudo, o elenco merece destaque: Eddie Murphy usa seu lado histriônico na medida pra compor seu James Early, Jamie Foxx consegue a proeza de fazer outro filme com canções passado na época da soul music sem nos fazer lembrar de sua interpretação em “Ray”. E ainda tem o medalhão Danny Glover dando uma força como coadjuvante de luxo. Mas quem rouba as cenas é a já citada Jennifer e sua Effie White, mulher de personalidade tão forte quanto a voz.
Sob o aspecto musical, Dreamgirls é uma delícia. Qualquer um com um mínimo de interesse pela música pop dos últimos 50 anos vai se divertir com as referências, desde a mais óbvia, as Supremes (em alguns takes a Beyoncé parece um clone da Diana Ross!), passando por B.B King, James Brown e até os Jackson Five. E, claro, a Sunshine Records é a Motown e o personagem de Jamie Foxx é o chefão Berry Gordy.
Contudo, há pisadas na bola como colocar o personagem de Eddie Murphy fazendo um rap no que deve ser o final dos anos 60/início dos 70, quando o estilo do canto falado só surgiu nos anos 80. E a versão dançante de “One Night Only” está mais pra house music do que pra disco music, mas tudo bem.
Apesar disso, o filme suscita uma discussão bastante pertinente nos dias de hoje, quando a música negra está pasteurizada tanto na vertente r’n’b-baba liderada pela própria Beyoncé quanto no estilo hip-hop gangsta-de-butique e suas letras sobre armas, drogas, grifes e sexo, primo rico do nosso funk proibidão.
Sintomaticamente, as melhores músicas estão na primeira parte do filme, quando reina a legítima e contagiante soul music. Fica a pergunta difícil: até onde vale mudar pra atender o mercado, com o risco de diluir a essência de um estilo musical? Lembrando que o rock só foi aceito depois de gravado por brancos como Elvis e Jerry Lee Lewis. Por sinal, a versão “branquela” de uma das músicas do filme é hilária pela verossimilhança com o estilo pop-baba dos anos 50. Berry Gordy foi um visionário e a Motown teve artistas geniais em seu cast como Marvin Gaye e as próprias Supremes. Só resta saber a que preço.
Escrito por mim mesma, oras! :P às 21h55
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